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Número 815,

Economia

Análise / Delfim Netto

Exportar e investir

por Delfim Netto publicado 01/09/2014 03h30
Sem atacar os problemas e insistir no investimento e nas vendas externas, jamais voltaremos ao crescimento robusto
Fontes: IBGE
PIB Trimestral

Depois de uma rápida recuperação da economia, a produção industrial estagnou

Há dezenas de diagnósticos sofisticados tentando explicar por que o crescimento do Brasil murchou. Mas há, também, uma explicação pedestre. Os indicadores são contraditórios: 1. Uma taxa de desemprego declinante, acompanhada de 2. Uma taxa de inflação que namora há anos o limite superior da sua “meta”, e 3. Um formidável déficit em conta corrente. A tabela compara esses indicadores acumulados nos dois últimos quadriênios, 2007-2010 e 2011-2014, com expectativas realistas para 2014.

O resultado é preocupante: uma queda de 60% no crescimento do PIB, um aumento de 20% na taxa de inflação e uma deterioração de 170% no déficit em conta corrente, compensados por um aumento na necessária inclusão social. O que aconteceu?

Olhemos o gráfico. Vemos que, do início de 2006 até o último trimestre de 2008, o PIB anual cresceu à taxa média de 5%. A taxa média de inflação foi da ordem de 4,5% (exatamente a “meta”) e o déficit em conta corrente total foi de apenas 13 bilhões de dólares, praticamente 1% do PIB, resultados extraordinários ajudados por uma rápida expansão da economia mundial. Com a terrível crise produzida pela falência do Lehman Brothers, no fim de 2009, nosso PIB encolheu 0,3% e o mundial, 0,6%, Houve uma rápida recuperação da economia brasileira, impulsionada pelos formidáveis estímulos eleitorais de 2010.

O primeiro ano da presidenta Dilma foi de duro ajuste. A situação complicou-se no início em 2012, quando começou a ficar claro que o crescimento do PIB seria muito baixo (foi de 1%), que a taxa de inflação, a despeito do ajuste anterior, cairia só ligeiramente (terminou em 5,8% ante os 6,5% em 2011) e que o déficit em conta corrente seria praticamente o mesmo, em torno de 50 bilhões de dólares (2,4% do PIB).

Esses fatos deram origem a um enorme ativismo microeconômico, para sustentar o emprego, com intervenções na taxa de câmbio e em alguns preços (particularmente no setor de energia).

A falta de previsibilidade, introduzida pelas intervenções pontuais destinadas a garantir o nível de emprego, fundamental para a consolidação da inclusão social, reduziu a disposição do setor privado de ampliar os seus investimentos. Com um setor público que “despoupa” e um setor privado inibido, não é de estranhar que a taxa de investimento do Brasil tenha encolhido entre o primeiro trimestre de 2011 e o primeiro de 2014, de 19,5% para 17,7% do PIB, reduzindo nossa taxa de crescimento.

Voltemos ao gráfico para a explicação pedestre. Ele mostra que, depois da rápida recuperação da economia, a produção industrial praticamente estagnou. Esta é a principal responsável pelo recuo do crescimento do PIB a partir de 2010.

O uso exagerado da taxa de câmbio (e preços públicos) para controlar a inflação (que destruiu o setor de biocombustível e a Petrobras) roubou 229 bilhões de dólares de demanda interna do setor manufatureiro entre 2010 e 2014. Este perdeu suas condições isonômicas de competição: carga tributária absurda que é desonerada na exportação apenas no papel; a maior taxa de juros real do mundo; um custo de energia alto e crescente; um sistema de tarifas efetivas defeituoso; uma política comercial frouxa e prisioneira de compromissos regionais custosos; a ausência de um regime expedito de drawback verde e amarelo e, por último, e ainda mais importante, uma política cambial errática a serviço do combate à inflação.

Sem atacar esses problemas e insistir no investimento e na exportação, jamais voltaremos a um crescimento robusto.

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