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Número 814,

Cultura

Artes Visuais

Exposição retrata a trajetória de dois séculos de design gráfico no País

por Ana Ferraz publicado 31/08/2014 09h37
"Túnel do Tempo do Design Gráfico no Brasil" traz 140 peças que abrangem 200 anos de produção
Reprodução

As linhas sinuosas do logotipo em art noveau prenunciam o conteúdo da revista Kósmos, devotada à arte, literatura e ciência. No primeiro número, o editor reflete sobre a vida frenética da metrópole e constata: “O século não tem tempo a perder”. Poeta afamado e cronista fabuloso, Olavo Bilac é o editor da publicação que, de 1904 a 1909, uniu de modo exemplar forma e conteúdo. “A revista é linda, de formato grande, se impõe. Apresenta qualidade de impressão e de miolo, assim como de fotografia. O papel é encorpado, colorido na massa, uma beleza”, descreve o designer Chico Homem de Melo, com indisfarçável entusiasmo pela peça que consta da exposição Túnel do Tempo do Design Gráfico no Brasil.

A mostra nasceu do livro Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil (Cosac Naify, 2011), organizado por Melo e Elaine Ramos. Das 1,6 mil imagens da obra original, a curadoria pinçou 140 peças gráficas. Se o formato é enxuto, a abrangência é ampla: 200 anos de design, de 1808 até a última década do século XX, da chegada da família real à alvorada do computador.

A viagem cronológica pelo túnel, que o curador considera adequar-se mais à introspecção do que ao espetáculo, convida a uma jornada afetiva. Um disco que marcou época, um livro inesquecível, uma capa histórica de revista, um cartaz de uma peça de teatro emblemática. À exceção dos cartazes, os objetos, originais e frágeis, estão expostos de modo a quase saciar a irresistível tentação de ter a obra nas mãos. Dispostos sob um vidro raso e inclinado, livros e discos “se oferecem quase ao tato do visitante”. A vitrine tem 26 metros de extensão e promove uma reunião nunca feita antes.

O túnel formado por dois painéis dispostos frente a frente vai do século XIX até 1990. Melo é um garimpador. Das peças expostas da década de 1960 para frente quase tudo lhe pertence. Seu olhar panorâmico e inclusivo é o de quem produz linguagem gráfica, condição que se reflete na amplitude de escolha. “Não tenho critério, deixo que a peça gráfica diga o que tem a dizer.”

A sofisticação da revista Kósmos, editada por Olavo Bilac

Longe do enfoque normativo, que não raro reduz e aprisiona, o curador se deleita em exibir objetos que ninguém viu ou conhece só da dimensão plana dos livros. Entre os exemplos está Areia da Praia, manuscrito dos anos 1940 da poeta Hÿldeth Favilla. “A capa é um espanto pela simplicidade. Traz o nome da autora, do editor e um risco que faz uma moldura sobre fundo branco. A produção gráfica é singela, mas a solução visual é de rara ousadia. É lindo.”

Melo confessa que algumas escolhas resultam de afinidade eletiva, “falam ao coração”. Outras se impõem por ser “monstros absolutos do design”. A famosa série de selos postais Olho de Boi, lançados pela Casa da Moeda em 1843, está entre as preferências. Aqui novamente vigora o apelo da simplicidade, exemplo de como “uma coisa tão pequenina pode ser imponente”. Ao descrever a peça pela qual nutre particular afeição, o designer enfatiza como a ausência de padrão gráfico favorece o resultado. “O selo só tem o numeral, 30, 60 e 90, e um ornamento por trás que lhe confere o apelido. Não há nada escrito, pois não havia modelo.”

Vizinha ao selo, outra preciosidade, um Decreto do Príncipe Regente, de 1808, peça mais antiga da mostra. “O design gráfico brasileiro começa com a chegada da família real, que trouxe as máquinas de tipografia e os operadores. É um documento sóbrio. A economia de recursos é parte do encanto dos impressos desse período.” Outra atração são as cédulas de 1833 conhecidas como Troco do Cobre da Província do Ceará, assinadas manualmente uma a uma pela autoridade monetária e representativas do curto período em que o Brasil produziu o próprio dinheiro. Até 1808 era proibido imprimir qualquer coisa no País,
que somente começaria a fabricar papel-moeda a partir de 1970. Até então, era feito em Londres, pela companhia Thomas de La Rue, ou nos Estados Unidos, pelo American Bank Note.

Na aurora da modernidade, a sofisticação de Kósmos contrasta com uma publicação de papel-jornal, impressão de baixa qualidade, formato menor e simplesmente genial. Do ponto de vista gráfico, O Malho oferece riqueza e diversificação. “Na mostra há um exemplar de 1903, uma capa deliciosa desenhada por K. Lixto, em que um sujeito picha o logotipo da revista num muro.’’

A mais impressionante publicação da década, segundo o curador, Para Todos é sinônimo da genialidade de J. Carlos. “Se tivesse de pinçar um nome nesse recorte de dois séculos seria o de J. Carlos. A revista não tem requinte ou viés erudito, a produção gráfica é singela, mas do ponto de vista visual é um arraso.”

Em outra publicação, uma melindrosa de olhar lânguido sopra um beijo discreto  ao leitor. Flores adornam os cabelos, e estrelas prateadas a representar a constelação que ilumina o céu austral se destacam do fundo magenta. Trata-se do primeiro número de Cruzeiro (ainda sem o artigo), de 1928. “O capista é o português Manoel Móra, pouco conhecido, pouco estudado e gênio.” A exposição traz outros dois números da semanal que nasceu sob o signo do “mundo novo”, com destaque para uma capa feita por Di Cavalcanti sob influência do art déco.” De 1928, o livro Laranja da China, de António de Alcântara Machado, exemplifica a atitude de experimentação visual. “As letras da capa são encavaladas, tudo meio mal-arranjado, na verdade um diálogo com a linguagem popular.”

Um pulo no arco do tempo e o visitante está diante do cartaz da primeira Bienal Internacional de Arte de São Paulo (1951), de Antonio Maluf. “A referência é a ideia da moldura de um quadro que vai crescendo,  perspectiva que chamo de certidão de nascimento do design modernista no Brasil.”

A década do design gráfico de tirar o fôlego é a de 1960. “Foram anos inacreditáveis, de fertilidade e ousadia.” A produção cultural caudalosa e criativa reflete-se em capas de discos de bossa nova, cartazes do Cinema Novo, revistas eruditas e jornalísticas, livros nacionais e estrangeiros. A série de discos de música instrumental brasileira lançada pela Som Maior destaca-se pela beleza das ilustrações, a maioria sem identificação de autoria, como em Sambossa/5. No cartaz do filme Os Fuzis (1963), de Ruy Guerra, Ziraldo desenha o personagem principal em close fechado, o rosto crispado e vermelho em contraste com o fundo negro. Em O Homem Nu, de Fernando Sabino (1962), Bea Feitler “usa as letras para dar forma ao personagem que dá título ao livro. A capa tornou-se um ícone da obra do escritor”.

Nos anos 1970, publicações como Movimento, Opinião e Versus deixam registrado do ponto de vista gráfico o momento histórico turbulento. Entre as revistas expostas está a edição 263, de 1973, em que Veja noticia o golpe militar que levou o general Augusto Pinochet à Presidência do Chile. A capa concebida por Hélio de Almeida é contundente: sobre o fundo branco apenas uma palavra, Chile, cuja letra i é substituída por uma arma fumegante. Na década de 1980, cabe ao rock ajudar a renovar o design gráfico. Capas de discos de bandas como Blitz e Barão Vermelho registram experimentações visuais. Na última década contemplada pela exposição, anos 1990, o modo de trabalhar passa da prancheta para a tela de computador. “Muda a maneira de pensar, muda quase tudo.” Dessa fase inicial da nova tecnologia surgem obras como o disco Tropicália 2, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, e Paratodos, de Chico Buarque.

Piloto dessa viagem no tempo, Melo acredita ter reunido peças “que fazem sentido e podem suscitar desdobramentos. Minha busca como pesquisador é esse olhar para todo lado”.

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