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Número 814,

Cultura

Refô

De encher a boca

por Marcio Alemão publicado 23/08/2014 07h40
A Casa Europa ressurge com boas massas e ragus
Shutterstock/Departamento de Arte
Casa Europa

Com boas massas, a Casa Europa prova que tem magia

Na esquina da Cônego Eugênio Leite com a Gabriel Monteiro da Silva, em São Paulo, me disse um motorista de taxi, certa feita, que haviam enterrado uma caveira de burro. Nada prosperava por lá. Foi há muito tempo essa conversa. Naquele momento, a Casa Europa, não a de hoje, andava, de fato, meio caída. Hoje, se a esquina ainda fizer parte da sua rota, o motorista deve incluir em seus assuntos a exumação que fizeram da caveira de burro e que trouxe nova vida ao local.

A esquina voltou a ter brilho, luz, alegria e movimento. Deixo crenças e simpatias no banco do táxi. A verdade é que paredes caíram, outras subiram. Uma grande reforma, uma nova iluminação e tudo se transformou. Simples, né? Sim, se um dos demolidores for o Ipe Moraes, que já provou há muito e para muitos que sabe montar boas casas.

A sua Adega Santiago segue, há décadas, sendo um sucesso. Junto entrou seu irmão Luis Antonio, neófito no meio, mas com uma curiosidade impressionante e com muita vontade de poder comer e beber bem. Não estranhe a frase. Se você não partir desse ponto, se não acreditar que está fazendo um lugar que vai te encher de prazer todos os dias, desista.

A casa tem uma magia. Você se sente acolhido muito rapidamente. Ao final da primeira refeição, você chega a pensar que falta uma Casa Europa na sua rua, no seu bairro. Um local onde você pode entrar, pedir um vinho bom, que eles mesmos estão trazendo, algumas fatias de culatello importado, uma linguiça especial feita em São Paulo e passar horas jogando boas conversas na mesa. Você se levanta e até esquece que tem de pagar. Atacar logo as boas massas com ragus poderosos é uma opção encantadora, por mais estranho que o adjetivo possa parecer.

Quem frequenta muitos restaurantes sabe como eles se complicam para resolver a simples equação: um prato de massa que encha a boca, que faça você fazer feio diante de uma dama, tentando colocar a segunda garfada sem terminar de engolir a primeira. A isso chamo de encantamento pelo conjunto da obra. Com peixes e carne a alegria será a mesma.

Procurar, descobrir e formar novos e bons fornecedores faz parte das atividades diárias dos sócios. Sabem que isso faz muita diferença. É isso que se junta com a habilidade do chef e forma o tal conjunto que hoje em dia tem sido raro de encontrar. Me perdoem os cientistas, mas criar uma bolha de ovas de duendes dinamarqueses com aroma de ragu de maniva me parece mais simples do que um papardelle com ragu de pato. Quem saberia dizer o ponto exato das ovas de duendes dinamarqueses?

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