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Número 814,

Economia

Análise / Thomaz Wood Jr.

Aula de produtividade

por Thomaz Wood Jr. publicado 30/08/2014 02h31
Uma ONG havaiana salva baleias, educa turistas e ainda dá lições de organização do trabalho
Bugsy/Flickr
baleia

A Pacif Whale Foundation, fundada em 1980, conduz pesquisas e educa o público para a preservação de baleias, golfinhos, tartarugas e recifes de corais

Procurar lições de produtividade em uma organização não governamental (ONG) pode parecer exótico. Elas costumam nascer do idealismo de seus fundadores, nutridos por ojeriza das coisas do mercado e da administração. Infelizmente, muitas perecem jovens, vencidas por problemas básicos de gestão. Outras sobrevivem, porém não conseguem realizar seu potencial.

A Pacific Whale Foundation (PWF) é uma ONG fundada em 1980, com sede em Maui, no Havaí. Sua missão é conduzir pesquisas e educar o público, com o objetivo de preservar baleias, golfinhos, tartarugas e recifes de corais. A organização conta com 150 funcionários e integra a bem estruturada indústria turística da paradisíaca ilha.

Uma de suas atividades é a realização de passeios para observação da vida marinha. Um de seus passeios mais populares leva turistas, ativistas e simpatizantes a Molokini, uma formação rochosa, parte da cratera de um vulcão extinto, situada a cerca de 4 quilômetros da costa sul de Maui. O local é um aquário a céu aberto, de água azul-turquesa, visibilidade perfeita e variedade impressionante de peixes: um paraíso para mergulhadores.

O passeio dura cerca de cinco horas, com direito a uma segunda parada, próxima a uma praia, para observar tartarugas. Em cada saída, a equipe da PWF recebe cerca de cem interessados em sua loja ao lado do píer, às 7 da manhã. Uma funcionária dá boas-vindas, fornece instruções e usa sua simpatia para vencer o sono do grupo.

O embarque é rápido e tranquilo. A ida a Molokini é ocupada por um café da manhã, instruções para mergulhadores noviços e pequenas palestras sobre a vida marinha, dosadas, para informar sem chatear. Pés de pato, snorkels e camisetas térmicas (para os friorentos) são distribuídos com presteza.

Chegando a Molokini, a equipe acompanha com atenção os convidados, em caiaques de apoio. Famílias japonesas, gêmeas texanas, bebês australianos, avós italianos, todos ao mar. A experiência é relaxante, hipnótica. Difícil é sair da água.

No trajeto seguinte é servido um almoço, com direito a mai tai, que não é o ponto alto do fantástico passeio. A segunda parada segue a mesma cuidadosa coreografia da primeira, mas dessa vez com um guia: um mergulhador da equipe, que conduz interessados por uma turnê subaquática.

O retorno ao píer marca um momento de descanso, com direito a frutas, cookies havaianos e pequenas palestras no convés. Na proa, uma pesquisadora forma uma roda com crianças para uma aula lúdica sobre tartarugas: a atenção é total. O passeio encerra-se pontualmente ao meio-dia, com o desembarque dos cem passageiros, alegremente cansados.

Além das lições ecológicas, a PWF oferece, involuntariamente, uma verdadeira aula sobre produtividade. Afinal, o cruzeiro é realizado por uma equipe com somente seis pessoas. Isso mesmo: seis funcionários da PWF recebem os cem turistas, manejam o barco, preparam as refeições, coordenam toda a logística dos mergulhos e fazem as palestras. E tudo sem pressa nem correria, com atenção e simpatia.

Mágica? Não há. O resultado é apenas uma combinação bem gerenciada de fatores. Os serviços de bordo são simples, porém não decepcionam. Todas as atividades são planejadas e executadas com esmero profissional. A jovem equipe, com idade entre 25 e 35 anos, tem formação superior e demonstra amor pelo que faz. Todos são polivalentes: a responsável pela âncora acompanha os mergulhadores inexperientes em um caiaque e dá aula para as crianças; o capitão comanda o barco e faz palestras sobre os vulcões e ilhas do Havaí. Nos picos de atividades, todos atuam, agindo com flexibilidade e senso de equipe. Trabalhar por uma causa na qual acreditam, certamente ajuda.

A realização dos cruzeiros, além de cumprir papel educativo, é fonte de receita para a PWF. Operar com uma equipe enxuta é essencial para viabilizar a operação. Sem planejamento, seria inviável atender tão bem grupos tão numerosos. A organização minuciosa do trabalho permite à equipe operar com foco, sem excesso ou estresse, e ainda garante tempo livre para conversas amigáveis com os passageiros. Podem ser lições surpreendentes, principalmente para quem ainda pensa que a alta produtividade é meta inalcançável ou objetivo demoníaco de capitalistas sem alma.