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Número 813,

Cultura

Cinema

Jim Jarmusch retrata casal de vampiros "aristocráticos"

por Thomaz Wood Jr. publicado 23/08/2014 06h59, última modificação 23/08/2014 08h22
Mais um produto do estilo pessoal do diretor, "Amantes Eternos" tem ritmo deliberadamente lento e imagens embaladas por trilha sonora hipnótica
SAkis Mitrolidis / AFP
Amantes Eternos

Tilda Swinton vive a vampira leitora em "Amantes Eternos", de ritmo lento e música hipnótica

Uma sequência do documentário Behind Jim Jarmusch, de Léa Rinaldi, mostra o cineasta norte-americano a caminhar pelas estreitas ruas de Sevilha durante as filmagens do longa-metragem Os Limites do Controle, lançado em 2009. Nos labirintos da cidade ibérica, Jarmusch medita sobre o prazer de andar a esmo.

Então, inverte a máxima atribuída a Sêneca, revelando seu princípio criativo: é difícil se perder quando você não sabe aonde vai. Para Jarmusch, criar é evitar planos rígidos, é dar chance para que a interação artística produza novos sentidos. A declaração pode ser, entretanto, meias- -verdades. O cineasta não segue uma rota precisa, mas tem senso de direção e sabe como avançar, com seu grupo de atores, técnicos e músicos, por territórios inexplorados, dividindo o prazer da jornada com sua fiel, se não numerosa, audiência.

Jarmusch nasceu em Ohio, em 1953. Consta que conheceu a Sétima Arte na infância, na plateia suburbana de filmes B. Flertou com a literatura e, na adolescência, ameaçou virar teólogo. Exilou-se nas margens culturais e desembarcou em Nova York, para ser poeta. No fim da faculdade, foi a Paris e internou-se por meses na Cinemateca Francesa. Voltou à América decidido a fazer cinema.

Conheceu Tom DiCillo e Spike Lee, e frequentou o lendário CBGB, templo da música e da cultura alternativa dos anos 1970, e além. Foi assistente de Nicholas Ray, mas consta que não conseguiu se titular. Seus primeiros filmes foram ignorados. Em1984, sua obstinação produziu Estranhos no Paraíso, premiado em Cannes, conquistou um séquito de adoradores e ajudou a criar o conceito de cinema independente.

Seu último filme reflete seu princípio criativo. Amantes Eternos conta a história de dois amantes vampiros: Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton). Como muitos casais contemporâneos, Adam e Eve vivem em cidades diferentes. Ele reside em Detroit, mostrada em cenas noturnas como uma urbe semiabandonada, um fantasma a lembrar pelas ruínas décadas mais felizes. Ela habita Tanger, no Marrocos, cortada por meandros e estreitas alamedas, cidade encontro de diferentes culturas e civilizações. Estão unidos por um relacionamento de séculos e pela arte. Adam é um músico de gênio, incomodado por ter de se manter a distância da ribalta. Coleciona instrumentos raros, cuja história e papel em epifanias criativas bem conhece e venera. Eve é uma leitora ávida, a devorar obras requintadas de diferentes épocas e culturas.

Amantes Eternos é mais um produto do estilo pessoal de Jarmusch, surgido nos anos 1980 e destilado nas últimas décadas. Há uma história e uma cronologia de fatos, mas não é o que importa. Mais relevantes são os personagens, seus humores e seus comportamentos. O ritmo é deliberadamente lento e as imagens vêm embaladas por uma trilha sonora quase hipnótica, convidando à contemplação. A combinação precisa entre enredo, música e imagem vem desde seus primeiros filmes. Daunbailó, de 1986, traz longas cenas de New Orleans e dos pântanos da Louisiana, acompanhadas por músicas de Tom Waits e John Lurie, que são também atores centrais do filme, formando com o italiano Roberto Benigni um trio desajustado de fugitivos.

Jarmusch sempre se manteve à parte, estética e comercialmente, da produção industrial cinematográfica norte-americana. Seu olhar sobre o próprio país é o de um estrangeiro, senão um alienígena, o que ajuda a explicar o respeito europeu por sua obra. Seus personagens são indivíduos deslocados, marginalizados, frequentemente fracassados, mas capazes de gerar empatia com o público.

A opção por fazer um filme de vampiros pode causar estranheza, mostra porém total sentido, desde a primeira cena. Para o diretor, há no mundo um estoque limitado de histórias que podem ser contadas. O que pode mudar é a forma de contá-las. O que importa para ele não é o ponto de partida ou a origem das ideias, mas onde se consegue chegar com elas, uma máxima emprestada do colega Jean-Luc Godard. Daí seu passeio por diferentes gêneros, sempre reinventados: western, filme de ação e agora um romance de vampiros.

Amantes Eternos segue a tradição dos filmes do diretor, mas é marcado por algumas mudanças. Foi filmado em tecnologia digital, uma contradição aparente para um cineasta que prefere o celuloide, não usa computador para escrever suas histórias e declara não possuir uma conta de e-mail. Outra mudança é que os personagens estão mais explicitamente frustrados e desencantados com os seres humanos, cuja existência parece seguir rota de colisão com o planeta e com o próprio sentido de humanidade. Uma tese implícita na narrativa é que todos os grandes artistas da humanidade foram vampiros ou se apropriaram das criações de vampiros. O ator inglês John Hurt interpreta Christopher Marlowe, dramaturgo inglês, contemporâneo de William Shakespeare, para quem declara ter cedido algumas obras.

Há alguns seres humanos de boa índole no filme. São, em geral, entretanto, referidos pelos personagens principais como zumbis, seres sem vontade própria ou senso de propósito, a flanar pelo mundo apenas para responder a seus instintos basais, enquanto conspurcam o ambiente com ruídos e restos.

Como notou o crítico A. O. Scott, do New York Times, o vampirismo do filme serve como metáfora, não para sexo ou desejo, como é usual no gênero, mas para a paixão pela criatividade. Adam e Eve são seres remanescentes de uma aristocracia de estetas, a cultivar a beleza em todas as suas formas, um grupo formado por escritores, poetas e músicos. Uma minoria isolada, cercada por gentios que perderam a capacidade de apreciar a arte, e consomem seu tempo com frivolidades, a tornar o mundo ao redor cada vez mais feio, sujo e inóspito.

Sua perspectiva histórica e seu amor pela arte e pela ciência impedem que os amantes matem suas vítimas para obter sangue. Eles conservam impulsos vampirescos naturais, mantidos até certo ponto sob controle. O casal obtém seu suprimento vital por outras fontes, cercando-se de cuidados para evitar sangue contaminado pelos zumbis.

Em uma cena passada em Detroit, Adam critica, irritado, a profusão de fios e conexões de uma instalação elétrica residencial, um atestado da incapacidade humana de fazer os sistemas mais prosaicos de forma elegante e funcional. Se o vampiro esteta vivesse em São Paulo, sofreria a mais profunda depressão. Em outra cena, também ocorrida em Detroit, Adam mostra a Eve as ruínas de um outrora majestoso teatro, a testemunhar a decadência que tomou conta da cidade, destruindo suas mais belas conquistas civilizatórias.

Scott sugeriu que o filme talvez reflita o conservadorismo geracional do cineasta, ao retratar os jovens como criaturas aceleradas, distraídas por seus dispositivos eletrônicos, incapazes de apreciar os prazeres sensoriais e intelectuais mais densos que somente uma existência calma e livre dos impulsos imediatos pode proporcionar. Sim, talvez seja conservadorismo, mas é mais provável que seja uma tomada de posição contra a barbárie que contamina os nossos tempos.

Confira o trailer de Amantes Eternos: