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Número 813,

Economia

Análise / Paul Krugman

A mitologia de Reagan

por Paul Krugman — publicado 21/08/2014 04h41
Os fatos pouco importam, o senso de identidade dos defensores do ex-presidente está ligado à sua fé

Ok, isto é grotesco. Rick Perlstein lançou um novo livro, The Invisible Bridge: The Fall of Nixon and the Rise of Reagan (A Ponte Invisível: A queda de Nixon e a ascensão de Reagan), continuação da sua incrivelmente informativa história da ascensão do movimento conservador – e está enfrentando acusações totalmente espúrias de plágio.

Como sabemos que são espúrias? Os acusadores – quase todos (surpresa) têm ligações com o movimento conservador – não apontam qualquer trecho real que fosse tirado de outro livro. Elas apenas afirmam que Perlstein parafraseou o que outras pessoas disseram.

Hum, o quê? A menos que haja uma semelhança muito grande, contar mais ou menos a mesma história que outra pessoa já contou é perfeitamente comum – na verdade, seria perturbador se os livros de história não coincidissem sobre certos fatos.

Eu conheço bem esse processo. Houve um tempo em que os vários suspeitos de sempre afirmavam que eu fazia coisas ilegítimas com dados de emprego. O que eu estava fazendo era na verdade perfeitamente normal – mas isso não impediu Daniel Okrent, o editor público de saída do New York Times, de disparar um último tiro (sem que eu pudesse responder) em 2005, acusando-me de manipular os números. Eu também ouvi internamente que havia alegações de plágio contra mim, mas claramente meus acusadores não puderam cozinhar evidências suficientes para pretender que pegassem.

A coisa a se entender é que acusações falsas de má prática profissional são uma tática conhecida dessas pessoas. E essa tática deveria ser perfurada pela imprensa, e não receber impulso com reportagens do tipo “as opiniões diferem sobre a forma do planeta”.

O ataque realmente vil ao novo livro de Perlstein foi revelador de diversas maneiras.

Não é apenas o esforço instintivo de suprimir e punir qualquer pessoa que levante perguntas; é também a maneira como os conservadores supostamente racionais e civilizados se contorceram para apoiar a linha do partido (o que sempre fazem quando interessa, independentemente de quanta liberalidade eles demonstrem quando não interessa).

E por que essa determinação em esmagar Perlstein? Tudo tem a ver com a reaganolatria, a necessidade da direita de ver o homem como perfeito.

O mito econômico é realmente notável. Todos na direita sabem que o presidente Ronald Reagan atuou sobre a criação de empregos em uma escala nunca vista antes ou depois – mas, simplesmente, não é assim. Na verdade, se você olhar os índices mensais de criação de empregos durante os últimos seis governos, as diferenças são de fato surpreendentes.

Talvez você soubesse que Bill Clinton foi um melhor “criador de empregos” do que Reagan, mas você sabia que ao longo do governo Carter – janeiro de 1977 a janeiro de 1981 – a economia realmente acrescentou empregos mais depressa que sob Reagan? Talvez você queira alegar que a recessão de 1981-1982 foi culpa de Jimmy Carter (embora na verdade tenha sido obra do Federal Reserve), por isso você começa a contar quase dois anos após o início do mandato de Reagan. Mas, neste caso, por que não fazer ao presidente Obama a mesma cortesia?

O ponto geral é que a suposta maravilha do histórico econômico de Reagan simplesmente não brota dos dados. Mas não espere que os reaganólatras reconheçam isso. Todo o senso de identidade deles está ligado à sua fé.

Alguém se lembra de Erick Erickson, editor de RedState.com? “O estado de Washington transformou seus residentes em um grupo de passadores de droga, que cruzam as divisas estaduais para comprar detergente para louça com fosfato”, escreveu Erickson em 2009. “Em que ponto as pessoas mandam os políticos pro inferno? Em que ponto elas levantam do sofá, marcham até a casa do deputado estadual, puxam-no para fora e o espancam até sangrar por ser um idiota? Em algum ponto isso vai acontecer.”

Sim, porque não há motivo possível para que políticos metidos interfiram no direito divino dado aos americanos para usar fosfatos como bem quiserem. É verdade que as fazendas são o maior problema, mas cada pedacinho conta.

Até onde posso ver, não existe uma campanha organizada de negação do fosfato, insistindo que os vazamentos não têm nada a ver com as algas. Mas tenho certeza de que surgirá uma, conforme a ação política se aproximar.

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