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Número 812,

Saúde

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A automedicação em animais

por Drauzio Varella publicado 14/08/2014 04h20
Alguns se protegem com ervas medicinais. Outros, como as formigas das madeiras, chegam a medicar sua própria prole
Flickr / John Jones

Chimpanzés doentes procuram ingerir ervas com propriedades medicinais. Essa capacidade não é exclusiva de animais com habilidades cognitivas superiores que lhes permitem observar, aprender e tomar decisões conscientes.

Diversos animais são capazes de se automedicar em obediência a mecanismos comportamentais inatos, independentes do aprendizado pela observação. É o que acontece, por exemplo, com formigas, borboletas e drosófilas, as mosquinhas que sobrevoam bananas maduras.

Em 1978, Janzen foi o primeiro a demonstrar que vertebrados doentes incluem na dieta determinadas plantas dotadas de atividade antiparasitária.

Os exemplos tradicionais de automedicação são os dos herbívoros que consomem certos vegetais apenas quando doentes. Observações mais recentes, entretanto, descrevem aumento da ingestão de alguns alimentos que já fazem parte das refeições diárias.

Para defender-se dos parasitas, os animais reagem de duas formas. A primeira é terapêutica, quando indivíduos enfermos modificam o comportamento para medicar-se. A outra é profilática, utilizada por indivíduos contaminados ou sadios para prevenir infecções em resposta aos riscos ambientais.

A maior parte dos trabalhos documentou casos em que os animais se automedicam, como o fazem babuínos e borboletas monarcas (as de asas amarelas e alaranjadas). Mas há animais que medicam seus descendentes.

As drosófilas, das bananas, procuram colocar seus ovos em alimentos ricos em etanol, para diminuir o risco de infecções nos recém-nascidos. Formigas que vivem na madeira incorporam em seus ninhos resinas antimicrobianas de árvores coníferas, para evitar o crescimento de germes em suas colônias, fenômeno conhecido como profilaxia social.

Primatas ingerem com frequência plantas com propriedades antiparasitárias de pouco valor nutritivo, como é o caso das folhas amargas da Vernonia amygdalina. Mastigar essas folhas amargas libera compostos tóxicos para os parasitas, ao mesmo tempo que engoli-las torna mais fácil eliminá-los dos intestinos.

Nas cidades, pardais levam pontas de cigarro para os ninhos, à espera de que a nicotina espante os insetos que deles se aproximarem.

A automedicação nos animais é um fenômeno muito mais generalizado do que se imaginava. Ela afeta a ecologia e as interações hospedeiro-parasitárias de diversas maneiras: reduz a virulência dos parasitas, interfere com a eficiência do sistema imunológico do animal, com a adaptação dos parasitas aos hospedeiros e vice-versa e são relevantes para a produção de alimentos que consumimos.

Interferir com a habilidade dos animais em automedicar-se pode causar problemas na agricultura. O exemplo clássico é o do parasitismo e das doenças provocadas em abelhas produtoras de mel, quando os apicultores selecionaram espécies para reduzir a deposição de resinas nas colmeias.

Como nos outros animais, nós também dependemos dos produtos naturais para obter medicamentos. A diferença é a tecnologia que empregamos na produção.

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