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Número 812,

Sociedade

Brasiliana

"Incentivos econômicos" para as eleições

por Willian Vieira — publicado 18/08/2014 04h08
A arte de testar fidelidades eleitorais e influenciar o jogo político com apenas 5 reais
Arte: CartaCapital

Eu só queria pagar as pessoas para lerem.” Eis a forma singela como Luiza Rodrigues traduz o jeito encontrado por ela para mudar os rumos da eleição presidencial: testar a convicção alheia com dinheiro. Insatisfeita com o “controle de preços” do governo, a economista publicou em seu Facebook uma espécie de promoção. “Minha contribuição para um Brasil melhor: se você ainda pensa em votar na Dilma, pago R$ 5 reais (sic) se você ler esse artigo inteiro, me mandar um resumo de dois parágrafos do texto e me explicar por que você ainda pretende votar na Dilma.” O artigo sugerido calha de ser uma peça de pirotecnia econômica para leigos com toques de previsão milenarista e retórica de botequim assinada pela consultoria Empiricus. Além de tal dever de casa, era preciso enviar a explicação da decisão, o número do CPF e os dados bancários. “Se você já não pensa em votar na Dilma ou mudar de ideia com esse artigo, não vale!”, alertava. “Não se venda por dinheiro como um corrupto, me deixe gastar R$ 100 (o máximo que gastarei com isso) apenas com pessoas que precisam ser convencidas.”

Direitista pragmática, Luiza queria testar a resistência argumentativa (e financeira) dos petistas. “Acredito no valor do incentivo econômico”, diz, a voz séria, de quem realmente acredita no que diz. “A pessoa pensa: poxa, se alguém está pagando, deve ser importante.” Todo mundo é avesso a ler algo contrário às suas crenças, explica. “Eu mesma: sou de direita, nunca leria uma revista de esquerda. Mas fui ler o programa da Dilma e conheci o Brasil Carinhoso. Achei fabuloso!” Pausa. “Por isso, assim como estou me forçando a ler sobre o PT, quem é dilmista deve saber sobre o controle de preços que ela pratica na marra. Quero ajudar a conscientizar.”

A vocação não é nova. Luiza passou em revista as promessas dos deputados eleitos no último pleito, em busca do que foi cumprido. Volta e meia opina nas redes sociais, com posts como “Moção pelo fim do BNDES, que empresta para o Eike Batista (bolsa milionário) com dinheiro de impostos”. Desta vez, porém, foi mais direta. Leu o texto de Felipe Miranda e teve o peculiar insight.

O autor do artigo “O fim do Brasil”, soa como uma síntese de Nostradamus, Padre Vieira e Rodrigo Constantino, tão apocalíptica quanto o que escreve. Seu texto, que promete deixar os investidores ricos na crise por ele anunciada, alardeia o fim do “nosso modo de vida” se o governo não mudar (leia-se, se votar em Dilma). Em 12 meses, diz, haverá um “verdadeiro colapso econômico”: “A poupança de milhões de pessoas será dizimada”, “os destinos de viagens serão alterados”, assim como “a escola dos filhos pode ser revista”. A inflação atingirá 15%, haverá “interrupções súbitas de energia e água, além do aumento de roubos, furtos, arrastões e sequestros”, sem falar em bloqueio de poupanças e censura da imprensa – ele menciona Goebbels, Hitler e o nazismo.

Para evitar a catástrofe, bastaria não votar em Dilma e dar dinheiro para ele. “A verdade é que, quanto menos pessoas souberem sobre esse investimento, melhor.” Como? “Pois bem… a assinatura de um ano da série custa apenas R$ 238,80...” e fornece “acesso a esse conteúdo indispensável àqueles que querem ganhar dinheiro de verdade quando a próxima crise chegar.” A argumentação é tão antiga quanto a Bíblia.

Luiza parece fazer parte de uma espécie rara no Brasil: a direita que pensa, na esteira da tradição liberal anglo-saxã. Defende um Estado menor sem apelar para monstros comunistas e perda de ganhos sociais, enquanto no Brasil restou apenas meia dúzia de recalcadas vozes raivosas, babando em cima de ativistas, uivando por um naco maior de lucro privado. “Precisamos de uma direita de coragem e sem raiva, uma direita inteligente, que não tenha medo de dizer: vamos privatizar a Petrobrás.” No Brasil ainda se acha que ser de direita é ser contra os pobres, diz. “Eu não quero maltratar ninguém, só quero produzir. Por isso nesta eleição devo votar nulo”, explica. “Meu voto é sempre por mais produtividade e nenhum candidato me convenceu com sua agenda até agora.”

Experiente para seus 31 anos, Luiza trabalhou como economista no Santander, foi consultora no SPC Brasil e lecionou economia na Faap. Por que usar um texto como o do Empiricus, mais interessado em amealhar um pé de meia do que em mudar o futuro do País? “Nem acho que seja o melhor texto do mundo”, explica-se. “Mas o estilo é didático. Facilita para quem não tem familiaridade com textos econômicos. E as pessoas precisam de uma vez por todas entender como é errado segurar os preços...” Sem saída para tanto civismo (e para a fixação com o tal controle de preços), Luiza acabou optando por Miranda.

Mal postou sua proposta, recebeu mais de cem mensagens de desconhecidos. “A maioria queria saber se era verdade que eu ia pagar e queria entender por quê”, conta. Alguns reclamaram do tamanho e do conteúdo do texto, difícil ou pouco crível. “Outros me xingaram.” Mas somente três mandaram o resumo – nenhum deles mudou de opinião. “Essa foi minha surpresa”, diz, frustrada. Luiza não gastou 1 centavo, mas tampouco conseguiu converter alguém.

Com controle de preços ou não, a maioria dos eleitores parece inclinada a seguir com Dilma, insensível aos “estímulos econômicos” da direita.

*Reportagem publicada originalmente na edição 812 de CartaCapital com o título "Incentivos Econômicos"

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