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Número 811,

Economia

Análise / Paul Krugman

Verdadeiro horror

por Paul Krugman — publicado 08/08/2014 04h07
Niall Ferguson e Newt Gingrich em conferência com as melhores cabeças econômicas é estarrecedor

Por acaso cliquei em uma postagem no Business Insider feita recentemente pelo comentarista financeiro John Mauldin, em que ele nos informa que o Produto Interno Bruto é uma trama keynesiana, e que sem ela Friedrich Hayek teria, é claro, vencido o debate macroeconômico.

Está bem, mas esse não é o horror. É este: “Já disponibilizamos os vídeos de Newt Gingrich e Niall Ferguson na Conferência de Investimento Estratégico”, escreveu Mauldin. “Esta semana ficamos felizes por oferecer ainda mais material desse evento incrivelmente informativo. Newt Gingrich e Niall Ferguson foram os dois principais apresentadores em uma conferência lotada com as melhores cabeças econômicas e de investimentos do mundo.”

Nossa!

O estrategista democrata Doug Sosnik escreveu um artigo interessante em Politico, recentemente sobre como “a esquerda” apodera-se do Partido Democrata. O que ele chama de “esquerda” seria o centro, e talvez até a direita do centro, na maioria das democracias ocidentais, e creio que ainda seja verdade que os ícones progressistas de hoje estão à direita dos liberais da velha-guarda como Teddy Kennedy.

Mas Sosnik tem razão de que houve uma grande mudança no modo como os democratas abordam as coisas. Eles perderam seu receio pós-Reagan.

Durante muito tempo não foram apenas os republicanos que acreditaram que a história estava do seu lado; muitos democratas pareciam sentir a mesma coisa. Uma velha charge nos anos 1980 mostrava democratas expondo sua nova plataforma: cortes de impostos para os ricos, benefícios para os pobres e defesa forte. Quando perguntados sobre como diferia da plataforma republicana, a resposta era: “Compaixão: nós nos importamos com as vítimas de nossas políticas”.

Mas as coisas mudaram. Os democratas, afinal, ganharam o voto presidencial popular em cinco das últimas seis eleições. Apesar de toda a loucura e dos desafios fizeram grandes progressos na antiga busca pelo seguro-saúde universal. Eles têm uma rede de grupos de pensadores muito menos financiada do que o aparelho da direita, mas que, intelectualmente, supera em muito seus adversários.

E, como escreveu Sosnik, a loucura da direita, de certa maneira, dá poder à esquerda moderada. Foi-se o tempo em que os democratas “de centro” realmente pediam paz: não fale sobre desigualdade nem diga coisas feias sobre a privatização ou a direita ficará furiosa. Mas, agora está claro que, não importa o que você faça, a menos que destrua todo o legado do New Deal, o mero fato de ser democrata provocará acusações de que você é um comunista islâmico ateu. Então, por que não defender alguns princípios liberais?

Uma onda eleitoral republicana este ano poderá trazer de volta o receio. Mas isso parece menos provável a cada semana que passa e em 2016 o mapa vai favorecer os democratas.

Como tudo isso se desenrolará é o que todos querem saber. O que eu não acho que veremos, mesmo que haja um Clinton na Casa Branca, é mais uma era Clinton em que os democratas liberais têm medo de assumir uma posição.

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Ezra Klein fez a pergunta errada recentemente em um artigo na Vox: por que alguém deve confiar no plano antipobreza de Paul Ryan? Ninguém deve. Caso você queira uma resposta mais longa, há diversos motivos para desconfiar do republicano que preside a Comissão de Orçamento da Câmara. Não é apenas que seu plano seja completamente incoerente com suas propostas de orçamento, e que ele não deu indício de como resolveria essa incoerência. Ou que os métodos propostos são simplesmente maneiras sub-reptícias de cortar a ajuda aos pobres. Ou que tudo o que ele disse sobre as causas e as curas da pobreza esteja errado.

Há também o fato de todas as propostas anteriores de Ryan terem sido trapaças. Por isso, a pergunta não é por que ou mesmo se você deve confiar nele – não deve, ponto.

A verdadeira pergunta é por que tanta gente na mídia ainda quer encontrar motivos para elogiar esse trapaceiro? As pessoas ainda tentam encaixar Ryan no papel do conservador sério e preocupado, como escrevi dois anos atrás.

Ele nunca deu qualquer sinal de realmente se encaixar nesse papel, mas não há mais ninguém, por isso ele continua recebendo o benefício da dúvida, não importa quantas vezes seja apanhado no mesmo velho truque.

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