Você está aqui: Página Inicial / Revista / O poder evangélico / Culinária na tevê, uma bela falácia
Número 811,

Cultura

Tevê

Culinária na tevê, uma bela falácia

por Marcio Alemão publicado 03/08/2014 05h11
Ou alguém já ouviu um apresentador provar a comida e dizer que é ruim?
Imeh Akpanudosen/Getty Images/AFP, Dylan Rives/Getty Images/AFP, Joerg Carstensen/AFP
Culinária na tevê

Os restaurantes de Jamie Oliver, um dos representantes da culinária na tevê, são um fracasso porque lá não há câmeras ligadas e amigos elogiando

Tenho um amigo que é bom para sugerir pautas. Ele prefere não ser identificado. Sua última sugestão, na verdade, daria um bom quadro de humor. Perguntou para mim se eu costumava assistir aos programas de culinária. Vejo alguns. Ver todos é tarefa impossível. Daí começou a conversa que ajusto no tempo verbal para os leitores.

Em algum programa vocês chegaram a ver o apresentador ou o convidado provar o que foi feito e dizer: “Uau! Isso ficou horrível!”? Nunca aconteceu. Mas, fora das câmeras, posso apostar que já aconteceu e deve acontecer direto.

Semana passada, falei do inglês cabotino que decidiu ensinar ao mundo como se cozinha e come. Por que seus restaurantes são um fracasso de público e crítica? Porque as câmeras não estão ligadas. Porque seus amigos não estão lá para dizer: “Nossa! Como isso está maravilhoso!”

Emeril Green é o programa do chef Emeril Lagasse. Um chef conhecido nos Estados Unidos, que fez um acordo com o Whole Foods Market e faz o programa acontecer nas instalações do supermercado. O programa é charme zero, mas vale notar a quantidade de pimenta-do-reino moída que o chef coloca em tudo. É assustador. Nada além do gosto de pimenta deve sobreviver. Mas, até hoje, nenhum convidado reclamou.

E que tal aquele programa do chef Curtis Stone, que tem o carisma de uma barbatana de colarinho? O sujeito aborda uma moça no supermercado e promete fazer um jantar encantador para ela e o marido. A pior parte: ela aceita.Em um filme, na sequência, veríamos o pessoal do CSI entrando na casa da mulher e vendo suas partes assadas, cozidas, marinadas. E alguém diria: “É ele. O serial killer gourmet”.

Outro ponto interessante da conversa: o vocabulário do especialista, do gourmet, já está na boca de qualquer apresentador em qualquer situação. O sujeito dá uma bocada em um sanduba que leva 500 gramas de bacon frito.

Frito em fritadeira. Uma folha de alface, duas rodelas de tomate e 500 gramas de bacon. Outra fatia sobre tudo, claro. Ele morde, revira os olhos, solta exclamações e diz: “Isso tem textura, tem a crocância do bacon com a suavidade do pão. Os açúcares do bacon com a acidez do tomate... hummm! Você sente a suculência, a força com delicadeza...”

Chega, né? Com meio quilo de bacon na boca você fica sem sentir gosto de outra coisa que não seja bacon durante 12 anos. Vai contaminar sua boca e seus sentidos. Não estranharia se você ficasse surdo.

Mas tudo faz parte do show. Quem sabe um programa de humor gourmet esteja tomando forma.

registrado em: