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Número 811,

Saúde

Alzheimer

A genética por trás do Alzheimer

por Rogério Tuma publicado 06/08/2014 04h38, última modificação 06/08/2014 04h43
O mal não é hereditário, mas alguns genes podem exercer importante papel em seu desenvolvimento
MTSOfan/Flickr
Alzheimer

Uma das maiores dúvidas, quando se descobre que os progenitores tem Alzheimer, é se é possível herdar a doença

Uma das dúvidas mais frequentes dos familiares, assim que descobrem que seu progenitor tem a doença de Alzheimer (DA), é se eles herdarão a doença. A resposta é simples: não. Apenas 5% dos casos de Alzheimer são herdados. Poucas famílias espalhadas pelo mundo possuem membros que manifestam a doença precocemente, entre 40 e 60 anos, pois têm uma alteração genética herdada. É a chamada doença de Alzheimer autossômica dominante ou DA precoce. Em 95% dos casos ela não é hereditária, mas a genética ainda assim exerce um papel crucial no desenvolvimento da doença: quem não tem familiares com Alzheimer tem um risco de 10% de desenvolver a doença durante a vida, mas se algum familiar já a teve o risco é de 20%.

Os genes presentes nos cromossomos são nosso código genético. Eles carregam a receita para as células produzirem as proteínas que vão participar na estrutura das células ou em funções metabólicas. A sábia natureza, no intuito de melhorar a espécie, permite modificações nos genes. São as mutações, mudando o gene, a proteína produzida também pode mudar. Às vezes as modificações aperfeiçoam uma função: a capacidade da fala em humanos ocorreu dessa forma. Em outros casos, a mutação não é tão benéfica e cria uma proteína defeituosa. Além disso, o acúmulo de mutações, após centenas ou milhares de anos, pode gerar uma doença geneticamente transmissível.

O gene que causa diretamente uma doença é chamado determinístico. Existe outro tipo, o gene de risco, que não causa diretamente a doença, mas aumenta os riscos de ela aparecer. Assim, a genética atua no desenvolvimento da doença de Alzheimer tardia, que ocorre após os 60 anos e responde por 95% dos casos. São dezenas de genes que promovem seu aparecimento e outras dezenas que nos protegem dela: o balanço entre eles resulta no tamanho do risco de se desenvolver a doença.

Alguns genes já são conhecidos e podem ser testados na população. Mas isso é um risco que pode ser reduzido pelo meio ambiente ou por mudanças de hábito. Famílias que geneticamente têm altos níveis de colesterol LDL, o ruim, no sangue têm maior risco de ter infarto do miocárdio, nesse caso, se modificamos a dieta e praticamos exercícios, o nível sanguíneo de colesterol ruim cai e esse risco pode ser anulado. É assim que a genética, os hábitos e o ambiente atuam no desenvolvimento da maioria das doenças.

Os genes que geram o maior risco de desenvolver DA são os da família ApoE. Eles codificam a produção de uma apolipoproteína, a beta-amiloide, que parece ser o meio físico onde armazenamos nossa memória, algo como uma fita magnética antiga. Mutações em nossos antepassados provocaram o aparecimento de quatro tipos de genes, um deles, o ApoE-e4, está mais associado à DA: 25% dos casos da doença tardia ocorrem em pessoas que possuem esse gene. Quem herda o ApoE-e4 tem alto risco de desenvolver DA tardia. Quem herda esse gene dos dois progenitores tem um risco ainda maior.

Não podemos dizer com absoluta certeza quem terá DA no futuro, mas podemos ensinar como evitá-la. No Congresso Mundial sobre Alzheimer, que ocorreu em julho deste ano, em Copenhague, doutor Kenneth Langa, da Universidade de Michigan, apontou que, enquanto o risco do desenvolvimento de DA continua crescendo nos países pobres, ele foi reduzido nos países ricos. Tal redução ocorreu porque os países ricos conseguiram diminuir os índices de hipertensão arterial e de colesterol em sua população, além de iniciar a educação logo nos primeiros anos de vida e de oferecer mais anos de estudos para todos. Tudo isso criou um ambiente mais saudável para o cérebro. Conclusão: mudando nossos hábitos alimentares e culturais, podemos ganhar anos de boas lembranças.

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