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Número 810,

Sociedade

Copa do Mundo

A ressaca da Copa

por Afonsinho publicado 27/07/2014 10h46
Passados mais de dez dias do ocaso final, é hora de abandonar a “xaropada”, responsabilizar os dirigentes culpados e pensar no futuro
JUAN MABROMATA / AFP
Futebol

Essa é a hora de juntar forças para discussão e promoção de coisas inadiáveis

Foi duro, no domingo 13, o da final da Copa do Mundo no Brasil, andar a esmo pela orla do Rio de Janeiro (nenhum jogo da Seleção Brasileira no ex-Maracanã) assobiando Chico: ‘de caminhar pelas trevas’. Aqui e ali o palpite de um amigo também transtornado: “Pensa que a Angela Merkel está aqui e depois vai para a Argentina à toa? Esta fazendo geopolítica”. Outro, mais conformado: “Foi além do que podia”.

A maioria das pessoas não sabia que a finalíssima seria às 4 da tarde e não às 5, como era comum. Estavam atordoados, quase todos. Menos mal que a cidade estava repleta de cidadãos do mundo todo, principalmente argentinos, excitados em sua loucura costumeira. A Copa do Brasil cumpriu sua função mais importante, a convivência humana, melhor que tudo, latino-americana. O consolo foi passar na “barraca do Uruguaio”, depois de tanto tempo, e o assunto parar no presidente Mujica e seu perfil despojado.

Batemos no fundo, nesse país de dimensões enormes, em que se joga futebol o ano todo, não tivemos jogadores nem treinador para fazer um time à altura de nossa história. Difícil aguentar tanta “xaropada” na ressaca da Copa. Uma enxurrada de Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e não sei mais o que sem nenhum sentido. Será que alguém se anima a ver algum desses jogos e ser obrigado a preencher horas de blá-blá-blá depressivo?

Horas seguidas de parolagens para justificar a quantidade despropositada de órgãos de “mídia” dedicados a uma completa falta de assunto. Estádios vazios, jogo oficial do Flamengo, valendo pontos, com menos de 400 pessoas. A situação é ainda mais acachapante quando pega o clube mais popular do País numa crise sem precedente. Falar de quê? De agressão a jogadores, que também vem de longe, ou da blindagem absoluta dos cartolas irresponsáveis? Quem sabe do Palmeiras, mais esperto, preparando-se para disputar o Campeonato Argentino.

Devem estar contentes os anunciantes patrocinadores desse vazio absoluto. Hora de mobilização, de manifestar a insatisfação de todas as formas possíveis. Transferir a pressão da equipe na Copa para os seus dirigentes responsáveis; tornar insustentável sua permanência. Diferente disso é aceitar que a sociedade brasileira se conforme em ser submetida com hino, bandeira e outros símbolos por três ou quatro saqueadores.

Levantam-se inúmeras opiniões e soluções. Foi precisa a presidenta Dilma ao situar, imediatamente, a evasão de jogadores jovens na raiz do problema. Um ponto de partida, uma pista, é o Santos F.C. Não é à toa que o raio caiu por lá bem mais de uma vez. Permanecem na orientação do trabalho de base Zito, Lima e outros mais, pessoas de reconhecida capacidade de trabalho, com a vivência vitoriosa de muitos anos, que não buscam os holofotes.

Existem muitos espalhados pelo País, não só nos grandes clubes, e merecem ser ouvidos. O Botafogo já se salvou assim preparando uma geração para recompor com Jairzinho, Arlindo, Roberto e companhia o time inesquecível de Nilton Santos e Garrincha. Tem revelado jogadores, mas perdeu a vergonha, virou barriga de aluguel.

Nunca um Zizinho ou um Didi foram treinadores do selecionado brasileiro, talvez sejam independentes demais, do alto de sua competência; sem falar de preconceito.

A cartolagem prefere adestradores, quase sempre “vacas de presépio” ou capatazes de relho na mão. Insisto na necessidade de coordenação entre as iniciativas saudáveis que buscam transformação, como Bom Senso, Atletas pelo Brasil e Frente Nacional dos Torcedores. Essa é a hora de se juntarem, de arrebanharem uma força de peso na discussão e promoção das mudanças inadiáveis.

Manifestou-se o secretário de Futebol do Ministério do Esporte, de quem se aguarda propostas que deve vir preparando há algum tempo. Reclamou que agora todo mundo tem uma solução, eis a medida do desespero a que se chegou. Como se não bastasse, a prepotência da Fifa ofuscou o brilho da nossa temporada de Festas Juninas e prejudicou os turistas, que não puderam conhecer os mais genuínos representantes das artes populares brasileiras.

PS: O Raio do Futebol, belo livro de poemas (haikai) com ilustrações da dupla Sérgio Rêdes e Sérgio Pinheiro foi lançado durante a Copa.

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