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Número 809,

Cultura

Artes Visuais

Francis Bacon e a síntese de sua pintura sanguínea

por Orlando Margarido — publicado 30/08/2014 02h18, última modificação 30/08/2014 02h41
Retratos de rostos e corpos disformes são os temas de desenhos que estão em exposição até o dia 7 de setembro em São Paulo
Reprodução
Francis Bacon

Obra da série Papa (1980-1990), misto de colagem, lápis e giz pastel

É tentador reconhecer na obra do irlandês Francis Bacon (1909-1992) um espelho da natureza irreverente e inadequação ao mundo cultivadas desde cedo. O garoto que calçou saltos altos, passou batom e surgiu em festa familiar nos anos 1920 como uma melindrosa foi mandado pelo pai a um amigo militar para este ensiná-lo a se comportar como homem, e, em vez disso, fez dele seu primeiro amante. Algo mais aflorou, no entanto, depois da experiência como voluntário na Segunda Guerra Mundial.

A um público espantado, apresentou seus retratos de rostos e corpos disformes, numa massa de cor que os fazia grotescos. São os mesmos temas e traços que também levou aos desenhos, 35 dos quais podem ser vistos até 7 de setembro no Paço das Artes, Cidade Universitária.

Os trabalhos com lápis, colagens e giz pastel integram um conjunto de quase 500 peças batizado de Italian Drawings, por terem sido realizados na Itália dos anos 70 aos 90, e pertencem a seu último companheiro, Cristiano Lovatelli Ravarino. Sintetizam as qualidades de sua pintura, que levou o crítico Robert Hughes a denominá-la como sanguínea, de cuja “tinta se faz carne”. Desde a sala da Bienal de 1998 não se via ao mesmo tempo suas séries recorrentes. Além da crucificação, modo para ele mais temerário de morrer, e dos retratos de amigos, surgem os famosos desenhos baseados na representação do espanhol Diego Velázquez para o papa Inocêncio X. Impressionado com o poder eclesiástico, Bacon também se referia neles à relação penosa com o pai.

Em biografia, alude-se ainda a uma entrevista a que o artista assistiu na tevê com o capo da máfia Michele Greco, conhecido como “Il Papa”. Teria enviado um de seus desenhos a ele, assim como fez com o político Giulio Andreotti. Esse hábito desprendido com os desenhos, técnica que o autor refutava adotar, foi um elemento de polêmica em 1998, quando o lote veio à luz. Naquele ano, Ravarino enfrentou na corte de Bolonha acusação de falsificação dos trabalhos, tese que críticos respeitados como David Sylvester confirmavam. O ex-amante ganhou a causa sustentado por grafólogos, colecionadores e estudiosos possuidores de um exemplar assinado pelo também notório bebedor e jogador compulsivo.

Italian Drawings
Paço das Artes, Cidade Universitária, São Paulo
Até 7 de setembro

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