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Número 808,

Política

Análise / Paul Krugman

Sadomonetarismo

por Paul Krugman — publicado 18/07/2014 03h42, última modificação 18/07/2014 04h22
Os bancos centrais mostram ímpeto na busca de motivos para aumentar os juros, apesar do desemprego e da inflação baixa

Ok, isto é bastante incrível. Tenho escrito com frequência sobre o “sadomonetarismo” entre os banqueiros centrais – o evidente ímpeto de encontrar algum motivo, qualquer um, para aumentar as taxas de juro, apesar do alto desemprego e da baixa inflação.

A mais influente colmeia desse tipo de pensamento é o Banco de Compensações Internacionais, que, por algum motivo, é alvo de grande respeito, apesar de oferecer um raciocínio sempre mutante – inflação! A qualquer dia agora! Ou talvez não! Estabilidade financeira! – para sua defesa imutável do dinheiro apertado. Mas o lugar onde os fazedores de políticas cederam de modo mais drástico a esse ímpeto foi a Suécia, onde a maioria no Riksbank decidiu se entregar ao vício do aumento de juros, enquanto congelava um dos maiores especialistas mundiais em riscos da deflação, meu amigo e ex-colega Lars Svensson.

Bem, adivinhe: os acontecimentos mostraram que Svensson estava tão drasticamente certo – aumentar os juros não conteve o aumento da dívida, mas levou a Suécia à deflação – que o banco central fez meia-volta abrupta e cortou os juros (desconsiderando o governador e o primeiro-vice-governador).

Na verdade, o drama dessa reviravolta pode ser uma coisa muito boa, já que poderia convencer os investidores de que essa é uma efetiva mudança de regime.

Henry Petroski, engenheiro e ótimo escritor, lamentou o declínio da boa construção nos Estados Unidos em um editorial recente no New York Times (nyti.ms/TDP387). É uma ótima leitura, estou tentando decidir se acredito em sua premissa.

Uma coisa está clara: houve declínio chocante e indesculpável no investimento público em um momento em que deveríamos estar fazendo muito mais. Os trabalhadores da construção sofrem um alto desemprego, os custos do empréstimo público estão em baixas recordes, a economia está basicamente inundada com mão de obra e capital, suplicando para serem utilizados. E veja o que está acontecendo com a construção pública.

Mas Petroski afirma que a construção privada também está em má situação, com materiais baratos e baixa especialização. É fácil reunir exemplos nesse sentido, e quase todo mundo tem a sensação de que costumávamos construir melhor as coisas. Alguns anos atrás havia um edifício em construção na Rua 86 com a Avenida West End, em Nova York, que exibia uma enorme faixa prometendo “Vida do pré-guerra no século XXI”. Se você conhece Nova York, isso significava pé-direito alto e paredes grossas.

E, quando me mudei pela primeira vez para Princeton, durante algum tempo minha mulher e eu moramos em uma McMansion nova em folha em West Windsor, Nova Jersey, que era enorme, com quartos gigantescos, e estava caindo aos pedaços desde o primeiro dia.

Mas eu me preocupo com exemplos tendenciosos. Sim, os edifícios antigos que conhecemos parecem ser mais bem construídos que os novos. Mas não é uma questão de tendência à sobrevivência? É mais provável que os prédios de construção barata do passado tenham desmoronado ou sido demolidos do que as estruturas de qualidade, por isso o que vemos hoje é o melhor do lote. Os anos após a Guerra Civil foram descritos na época como a Era do Trapo (palavra que originalmente descrevia um tecido barato produzido pelos especuladores da guerra), e certamente havia muitos prédios sendo mal construídos.

E quando eu era jovem – como estudante de graduação e como professor assistente – meus amigos e eu morávamos em prédios de três andares; vou lhe dizer, eles não eram bem construídos. Alguns de meus amigos tinham uma corda amarrando a porta da geladeira, para que ela não se abrisse devido à inclinação do piso.

Ah, e nem tudo que vale a pena fazer está se saindo bem. A construção barata faz sentido se você desconfia de que em breve a mudança de uso do solo vai tornar obsoleta uma estrutura de construção cara.

Dito isso, não sei se Petroski está errado; talvez os americanos realmente estejam construindo mal. Mas preciso de melhores evidências.

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