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Número 808,

Sociedade

Brasiliana

A vida em um conjunto habitacional na periferia do Rio

por Claudia Bellante — publicado 24/07/2014 04h15
Como vivem os moradores do condomínio Coimbra, em Santa Cruz, zona oeste carioca
Mirko Cecchi/Parallelozero
Rio extremo

Os moradores do novo conjunto habitacional em Santa Cruz esperam por escola, hospital e treinamento

O condomínio Coimbra é o último de uma série de seis conjuntos de edifícios quase idênticos entre si na Avenida Palmares, uma estrada rural rodeada de nada no bairro de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro. Chegamos lá em uma sexta-feira às 6 da tarde. As lâmpadas nos quintais das casas estão acesas e emitem luz tênue. As crianças brincam, gritam e fazem voar pipas, mais populares que as bolas de futebol nesse subúrbio carioca. Viemos até aqui para entender como se vive nos novos complexos habitacionais surgidos nos últimos anos nas periferias das cidades brasileiras, graças ao programa Minha Casa Minha Vida.

Leandro Ferreira foi o primeiro a chegar em Coimbra, em maio de 2012. Tem 33 anos e vive com a mulher, Gabriela, e seis filhos. A família de oito pessoas compartilha um apartamento composto, como todos do condomínio, de uma sala, uma cozinha, um banheiro e dois dormitórios – 50 metros quadrados no total.

Ferreira é o síndico de Coimbra. Ocupa-se da coleta do dinheiro para os gastos do condomínio e a organização do edifício. Entretanto, mais que tudo, trata de mediar as posições e demandas dos habitantes, amiúde discrepantes. “É difícil”, admite. “Há moradores vindos de diferentes favelas, controladas por facções diferentes. Eles continuam a agir como se fossem inimigos.”

No bairro não há clubes, bares, restaurantes. Os botecos, dentro e fora dos condomínios, são os únicos locais de reunião. Só existe uma praça, no fim da estrada, onde, às sextas à noite, se organizam bailes funk.

O síndico nos leva a um campo de terra entre um prédio e outro, coberto pela grama e o lixo: “Tentamos conseguir a permissão para organizar um pequeno mercado, onde a gente possa vender o que produz, alimentos, artesanato”. Ele aponta outro espaço abandonado e diz: “Aqui estava prevista a construção de um centro médico, mas as obras estão paradas. Somos quase 10 mil moradores. Precisamos de um hospital, escolas para nossas crianças e um centro de formação para adultos”. Santa Cruz é um importante polo industrial que reúne empresas químicas e metalúrgicas em busca de mão de obra qualificada.

O fim de semana em Coimbra ferve de humanidade. Bem em frente ao condomínio, há um pequeno supermercado. “Aqui as coisas são mais caras do que na cidade”, afirma uma senhora. “Mas não há outro lugar para fazer compras.”

No caminho encontramos Waldomiro, velhinho que leva um gorro xadrez de lã e óculos enormes. Vivia antes em Guaratiba. “Meu prédio foi demolido e, em troca da minha casa, que valia 200 mil reais, me deram esta.” Trata-se do apartamento 204, no segundo andar do Bloco 2 do Condomínio Almada, cujo preço de mercado é de 50 mil reais. “Desde que cheguei aqui, faz um ano, fiquei com mais dificuldade de andar. Vivo da aposentadoria e tenho de tomar quatro medicamentos por dia. Uma caixa do medicamento custa 107 reais. Meus filhos me visitam raramente, pois vivo longe, eu me sinto só e quero ir embora. Vocês querem comprar a minha casa?”

Janaídas e Cidicley vêm da Maré. Estão casados há 25 anos e com seus amigos organizaram um churrasco no quintal. Janaídas está feliz: “Encontrei trabalho em uma empresa de limpeza em um condomínio próximo. Santa Cruz é tranquila, não há ladrões e a vida é mais barata. Na favela, a perua que levava meus filhos na escola custava 240 reais por mês, aqui são 70 reais”. Cidicley, por outro lado, é marceneiro e permanece na Maré. “Venho nos fins de semana, mas não posso viver aqui. É muito longe, perderia o meu trabalho, caso mudasse.”

O isolamento é o principal problema apontado pelos habitantes de Palmares. A Avenida Brasil, onde circulam os ônibus de linha, fica a mais de 2 quilômetros. A prefeitura construiu os prédios, mas não solucionou o problema da mobilidade dos cidadãos. Uma milícia aproveitou-se e criou sua própria frota de vans e motocicletas. Uma passagem custa 2 reais, sem descontos.

“Cada família tem de pagar aos milicianos uma taxa mensal. Normalmente, de 20 a 30 reais. É como se fossem vigilantes privados, mas, se não aceitamos, nos ameaçam com a morte. Estamos obrigados a recorrer a eles por botijões de gás e tevê a cabo, não temos alternativa. E se encontram um bandido ou um viciado, matam”, conta um garoto, que prefere permanecer no anonimato.

Na segunda, voltamos para casa, a 60 quilômetros de Santa Cruz, na parte do Rio de Janeiro que todo mundo conhece e pela qual se apaixona com facilidade: a beira-mar lânguida, abraçada e protegida pelo Cristo Redentor, que nunca olha para quem está atrás dele.

*Reportagem publicada originalmente na edição 808 de CartaCapital, com o título "Rio extremo"