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Número 806,

Economia

Análise/Delfim Netto

Vantagem extraordinária

por Delfim Netto publicado 01/07/2014 04h29, última modificação 01/07/2014 04h38
O emprego elevado é um diferencial, mas é preciso crer que os leilões da infraestrutura vão puxar os investimentos

Desde o início da presente década a economia brasileira mantém o mercado de trabalho funcionando num nível bastante próximo do pleno emprego, o que representa um diferencial importante em relação à grande maioria dos países razoavelmente civilizados que apenas conseguiram recuperar ínfima parcela dos 50 milhões de empregos detonados a partir de 2008/2009 pela grande recessão, equivalente a menos de 20% dos postos de trabalho que a crise financeira suprimiu – de acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho, OIT – nos países da Comunidade Europeia, do Norte da África e nos Estados Unidos.

Sem ter de lidar com a tragédia do desemprego, nossa sociedade aparentemente não se mostrou atenta nos últimos anos para a necessidade de se alterar a ênfase de uma política de estímulos ao consumo e dar efetiva prioridade às políticas que levariam ao aumento dos investimentos. Demoramos a entender que, quando se está próximo do pleno emprego, não podemos crescer como no passado simplesmente absorvendo mais mão de obra.

Aconteceu uma revolução demográfica que mudou o Brasil: as mulheres reduziram a taxa de fertilidade pela educação, passaram a procurar o mercado de trabalho e assumiram papel central na redução da pobreza: aceitaram a realidade segundo a qual a única possibilidade de ascensão social de seus filhos é pela educação, de tal forma que isso reduziu dramaticamente a taxa de crescimento da força de trabalho.

Em 2010, tínhamos praticamente uma situação de pleno emprego. Hoje, para retomar o desenvolvimento será preciso dar à mão de obra que já está empregada mais capital, mais acesso à tecnologia e novos estímulos para trabalhar, de forma que o crescimento da população condicione a natureza do desenvolvimento.

O crescimento econômico deve ser feito com o aumento dos investimentos privados e públicos, principalmente na melhora da infraestrutura, cujas dificuldades são em geral as maiores inibidoras dos investimentos dos setores privados.

Evidentemente, estar perto do pleno emprego é muito benéfico para o Brasil, algo fantástico que estamos deixando de levar em consideração, já que é uma vantagem extraordinária: o mais importante é dar emprego à nossa gente, mostrar que a economia está funcionando. Agora, é preciso entender que, uma vez atingido esse nível, a única forma de crescer é através do investimento.  Não adianta manter a ênfase só no consumo, porque isso pode levar a mais inflação e a aumentar o déficit em conta corrente.
Desde 2012 a presidenta Dilma Rousseff havia entendido isso, quando procurou acelerar os programas de concessões.

Lamentavelmente, houve erros grosseiros da burocracia estatal ao insistir que era possível estabelecer ao mesmo tempo a qualidade da concessão e a taxa de retorno do investimento. Afinal, o governo entendeu esses fatos, mas demorou a superar as resistências tipicamente burocráticas no financiamento dos investimentos.

É preciso que a sociedade – principalmente o setor produtivo – acredite que o sucesso atual nos leilões da infraestrutura vai levar a uma ampliação dos investimentos e, portanto, justificar as decisões de novos investimentos. Recentemente, a presidenta e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, reuniram-se em Brasília com os empresários representando os setores que investem nas obras do PAC, sinalizando uma melhora no relacionamento com o governo, que efetivamente passou a existir desde o segundo semestre do ano passado.

O grosso dos investimentos na infraestrutura já decididos deve começar a maturar daqui a dois anos. De acordo com o mais recente levantamento da Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, os recursos injetados em concessões nas três áreas principais, Logística de Transportes (rodovias, aeroportos, ferrovias e sistemas portuários), Energia (geração e transmissão) e Telecomunicações, devem somar 300 bilhões de reais entre 2015 e 2017. Pelo fato de que boa parte desses recursos se refere a obras já licitadas, com valores já contratados, a Seae considera que se trata de uma estimativa conservadora do quanto será efetivamente investido nos próximos quatro anos.

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