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Número 806,

Política

Paraná

No Paraná, Requião bagunça o coreto

por René Ruschel — publicado 09/07/2014 05h00, última modificação 09/07/2014 05h15
O senador vence a convenção do PMDB e será candidato ao governo na disputa com Beto Richa (PSDB) e Gleisi Hoffmann (PT)
Agência Senado

Poucos políticos no Brasil têm força atualmente para romper a polarização entre o PT e o PSDB. Um deles é o senador Roberto Requião, do PMDB. Embora um aliado crítico dos petistas, Requião decidiu bagunçar o cenário da eleição no Paraná, que caminhava para uma disputa entre o tucano Beto Richa, atual governador, e a ex-ministra petista Gleisi Hoffmann. “Tenho quatro anos e meio de mandato no Senado. Estou muito satisfeito em Brasília, mas quando vi a bagunça que esses meninos inexperientes e irresponsáveis fizeram com o meu estado, senti a obrigação de colocar meu nome à disposição do partido”, afirma.

Por 319 votos a favor e 250 contra, Requião foi aclamado candidato do partido na convenção da sexta-feira 20 e derrubou os prognósticos dos analistas políticos. A tendência do PMDB local era apoiar a reeleição de Richa, que tinha o apoio de um grupo de dez deputados estaduais da legenda. Por causa dessa aliança, iniciada em 2011, quando o tucano tomou posse, o Executivo nunca perde na Assembleia Legislativa. Em troca da fidelidade, o peemedebista Luís Claudio Romanelli, nascido de uma costela de Requião, foi nomeado secretário estadual do Trabalho. “Compor a base de apoio do governador foi uma decisão isolada dos deputados estaduais, sem nenhuma discussão interna. Os parlamentares aderiram ao governo em busca de melhores perspectivas para a reeleição, como se o mandato fosse emprego e não uma ferramenta a serviço do interesse público”, afirma Requião.

Outro ponto de discórdia, além de uma surpresa pela total incoerência, foi a posição de Orlando Pessuti, vice de Requião por dois mandatos e governador nos últimos meses de 2010. Sob a administração Dilma Rousseff, Pessuti integrou o conselho de administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e de Itaipu, estatal de energia. No início deste ano, deixou os cargos de olho na candidatura ao governo estadual ou ao Senado. Em Itaipu, foi substituído pelo filho, Orlando Moisés Fischer Pessuti. Sem espaço político no PMDB, perdeu a indicação para as vagas, mas seu apoio continuava disputado até o último instante por Requião e por Gleisi Hoffman. A menos de 72 horas da convenção, o ex-governador anunciou a decisão de apoiar a coligação com o PSDB. Perdeu também esta.

A estratégia para reordenar o PMDB paranaense passou pela mobilização das bases. Em 32 encontros regionais, milhares de militantes afastados do cotidiano da legenda puderam debater e discutir os problemas do estado e do partido. Isso reanimou uma militância antes acomodada e alijada. “Escutar a sociedade é fundamental. Por isso, apoio o projeto da presidenta Dilma Rousseff, que pretende organizar os movimentos populares para servirem de interlocutores com o governo federal. Temos a obrigação de ouvir a população”, anima-se o candidato, governador por três vezes.

Em suas peregrinações pelo interior, Requião conclamou a sociedade a participar da vida pública e partidária, a demonstrar sua insatisfação com os gestores públicos e a exigir direitos elementares. Para barrar os planos de Requião, o tucano Richa ofereceu cargos a vários delegados aptos a votar na convenção. Sem sucesso. “O brasileiro comum, o cidadão que trabalha e luta, é honesto e exige a mesma postura de seus governantes. Se não fosse assim, teríamos perdido a convenção.” Segundo o senador, o exemplo do PMDB paranaense deveria repercutir País afora.

Pragmático, Requião não vê na reforma política a solução de todos os males. Proibir o financiamento privado de campanha seria, no entanto, um passo gigantesco para diminuir em 90% a influência do poder econômico nos partidos, no Congresso e em todas as esferas de governo. “No Brasil, bastaria acabar com o dinheiro privado nas campanhas que resolveríamos um sem-número de problemas estruturais.” O senador critica a proposta do ex-presidente Lula, exposta em sua recente entrevista a CartaCapital, de convocação de uma Constituinte exclusiva para a reforma do sistema político. O próprio PT, ressalta o peemedebista, caiu na armadilha do status quo. Em consequência, a influência do capital passou a ser muito maior que aquela do povo. “O Lula sabe disso. Apoiei sua candidatura em cinco ocasiões, mas ele errou ao buscar o apoio do Paulo Maluf e ao fazer acordos com a extrema-direita dos ruralistas. Aliás, esses erros ele deve confessar. Eu aplicaria ao Lula o Código Canônico que determina, primeiro, o arrependimento, segundo, a confissão, terceiro, a penitência e, por último, o perdão para recomeçar.”

Como prova dessa disfuncionalidade da política nativa, Requião cita as negociações para a escolha do vice em sua chapa e das possíveis coligações eleitorais. Reitera a tese de que as articulações partidárias envolvem o financiamento de campanha e os apoios são negociados com base nos recursos que o candidato pode obter. E diz pretender evitar esse tipo de aliança. “Não temos dinheiro para financiar candidaturas a deputado estadual ou federal. Vou buscar o apoio como fiz na convenção do PMDB. Um vice que tenha afinidade com nossa proposta política e programática. Se não conseguirmos viabilizar esse apoio, vamos enfrentar os adversários com uma chapa puro-sangue, como fizemos nas três vezes anteriores em que fui eleito.” Requião é forte candidato.  De qualquer maneira, por seu estilo franco e não raramente teatral, no mínimo vai garantir alguma diversão em um disputa estadual antes fadada ao tédio absoluto.

*Reportagem publicada originalmente na edição 806 de CartaCapital, com o título "Requião bagunça o coreto"