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Número 806,

Economia

Análise/Paul Krugman

Os republicanos não têm herói

por Paul Krugman — publicado 01/07/2014 04h29, última modificação 01/07/2014 04h38
Bush filho combinava a fidelidade aos plutocratas com uma maneira pessoal que atraía a base do partido
Wikimedia Commons
George W. Bush

Em retrospectiva, eles precisavam do presidente George W. Bush muito mais do que percebiam

Matt Yglesias, comentarista da Vox, refutou recentemente afirmações feitas pelo colunista do New York Times Ross Douthat e por outros de que o Partido Democrata é uma coalizão frágil que só se mantém unida pela popularidade pessoal de Hillary Clinton (o artigo de Yglesias, em inglês, pode ser lido em bit.ly/1uYuzTv). Ele tem razão, eu apenas gostaria de acrescentar alguns pensamentos.

Como escreveu Yglesias, os democratas são notadamente unidos nas políticas. Eles querem preservar a reforma da saúde (embora alguns queiram levá-la mais adiante) e uma ação sobre a mudança climática, e embora possam estar em conflito sobre a imigração, isto é, exame de consciência principalmente, mais que uma divisão entre facções do partido.

Essa união nas políticas foi ajudada pelo sucesso moderado do presidente Obama em alcançar essas metas. Se ele tivesse tido facilidade, o partido poderia estar dividido entre os que querem mais ação radical e os que não têm pressa, se ele tivesse falhado completamente, o partido poderia estar cindido (como esteve na maior parte das últimas três décadas) entre uma facção liberal e uma facção republicana light. Como está, entretanto, Obama conseguiu muito do que os democratas buscam há gerações, mas somente com grande dificuldade contra a oposição de terra arrasada.

Isso significa que o conflito entre “a ala democrática do Partido Democrata” e a ala mais favorável às grandes empresas está relativamente abafado: a ala liberal sabe que Obama conseguiu a maior parte do que poderia ter conseguido, e que as políticas reais não foram do tipo que teria assustado a ala menos liberal.

O acesso de mau humor de Wall Street nos últimos anos também ajudou a união do partido, de um modo peculiar. Os banqueiros que costumavam apoiar os democratas mudaram seu apoio para os republicanos, enquanto lamentam o tempo todo que Obama está olhando com estranheza para eles, isso reduziu sua influência sobre os democratas, deixando um consenso funcional sobre regulação e políticas fiscais entre os que restaram.

As personalidades importam em tudo isso? Não muito. Afinal, Obama implementou o plano de saúde de Hillary Clinton, e Clinton, caso eleita, continuará o legado de Obama. O partido está disposto a se unir em torno de um indivíduo, porque está unido nas políticas e não o contrário.

Na verdade, são os republicanos que precisam desesperadamente de um herói. Em retrospectiva, eles precisavam do presidente George W. Bush muito mais do que percebiam: ele combinava a fidelidade política aos plutocratas com uma maneira pessoal que atraía a base de um modo que nenhum republicano consegue hoje.
Uma recessão, em 2016, poderia levar um republicano, qualquer, à Casa Branca. Mas a coalizão democrata não é frágil, enquanto a coalizão republicana, sim.

O colunista da Bloomberg Barry Ritholtz escreveu recentemente um belo post em seu blog financeiro, The Big Picture, reconhecendo um erro (nada fundamental) em uma coluna e discutindo como lidar com erros quando você os comete – o que todo mundo faz! Gostaria de acrescentar que há erros e... erros. É importante saber qual você cometeu. Já escrevi sobre isso antes, mas talvez eu tenha uma maneira nova de expor minha tese.
Suponha que você esteja fazendo uma previsão – e toda a afirmação sobre como o mundo funciona tem de envolver pelo menos uma previsão implícita de alguma coisa, porque de outro modo é vazia. Essa previsão vem de algum tipo de modelo – se você não acha que tem um modelo, está enganando a si mesmo, e seu modelo é ainda pior porque você imagina que não o está utilizando. Para fins de argumentação, digamos que seu modelo assume a forma:
y = a + b * x + u
onde y é o que você está prevendo, x é algum tipo de variável explanatória, a e b são parâmetros e u representa coisas aleatórias (não necessariamente aleatórias de verdade, mas coisas que não fazem parte do seu modelo). Esse último termo é importante: ninguém, e o modelo de ninguém, capta as coisas totalmente certo.

Então, suponha que sua previsão sobre y acabe sendo muito distante. O que isso lhe diz? Poderia simplesmente significar que, como os adesivos de para-choque não dizem exatamente, “coisas acontecem”. Poderia ter havido um choque aleatório ou suas variáveis explanatórias podem não ter feito o que você esperava delas. Mas também poderia significar que o seu modelo subjacente está completamente errado e exige uma reformulação.

E aqui está a coisa: ao longo de sua vida, você vai cometer os dois tipos de erros. A questão é se você mantém sua história básica ou percebe que ela está errada.

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