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Número 805,

Cultura

Música

Há 150 anos, nascia Richard Strauss

por Olívio Tavares de Araújo — publicado 15/09/2014 03h55
O mais prolífico e aclamado operista da primeira metade do século XX é comemorado em 350 espetáculos de 80 montagens pelo mundo

O compositor Igor Stravinski era rigoroso. Disse sobre a apreciação do escritor Marcel Proust, que nos anos 1920 lhe confessara entusiasmo pelos últimos quartetos de Beethoven: “Não era um juízo musical, e sim uma pose literária”. Quanto a seus contemporâneos, tinha especial ojeriza por Richard Strauss, cujas óperas condenaria a “qualquer purgatório que castigasse a trivialidade triunfante”. Um século e meio após seu nascimento, a 11 de junho de 1864, em Munique, o mais prolífico e aclamado operista da primeira metade do século XX, agora comemorado em 350 espetáculos de 80 montagens pelo mundo, continua polêmico.

De pai músico exímio, Strauss compunha desde a infância e aos 21 anos sucedeu a Hans von Bülow, por indicação deste, na regência da orquestra de Meininger, uma das mais importantes da Alemanha. Aos 30, convidado por Cósima, viúva de Wagner, regeu Tannhäuser no teatro-santuário de Bayreuth. Em 1933, nomeado à revelia por Joseph Goebbels diretor da Câmara de Música do III Reich, aceitou provavelmente para proteger a nora e os netos judeus. Dois anos depois foi demitido e, a exemplo de Winifred Wagner, nora e sucessora de Cósima e amiga do Führer, teve de enfrentar um tribunal de desnazificação no pós-Guerra. Acabou, com justiça, inocentado. O que não significa que não fosse reacionário e arrogante.

Em Paris, 1907, comentou ser tempo “de nós, alemães, voltarmos à França com baionetas”, mas não apoiou a guerra de Hitler. A cantora Lotte Lehman o descreveu como “distante, impessoal e frio”. Stravinski: “Muito alto, calvo, enérgico, retrato perfeito do bourgeois allemand. Os músicos o detestavam. Porém, cada correção que fazia era exata, pois seu ouvido e sua musicalidade eram invulneráveis”. Autorreferente e imodesto, confiou à nora em seu leito de morte: “Ela é exatamente como eu a compus em Morte e Transfiguração”.

Trata-se do quarto dos dez poemas sinfônicos que o consagraram antes dos 35 anos. Compostos numa linguagem romântica tardia, de brilhantes melodias e instrumentação virtuosística, integram o repertório de todas as grandes orquestras. O mais conhecido é Assim Falava Zaratustra (1896), cujo início foi usado por Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espaço. O melhor permaneceu, talvez, Don Juan, esfuziante obra de um mestre de 25 anos. Munido de uma história a ser musicalmente contada, o poema sinfônico representava um passo à frente, na linha de Wagner e de Liszt. A música “pura” ou “absoluta”, de linhagem conservadora, era representada por Brahms, que só compôs sinfonias “abstratas”, no modelo clássico-romântico.

Aos poemas sinfônicos sucederam-se quinze óperas. Em 1905, Strauss surpreende com Salomé, libreto tirado da peça de Oscar Wilde, sucesso pela arte e pelo escândalo. Segue-se Elektra, em 1908, baseada na tragédia clássica, ousada e aplaudida. Em 1910 compõe O Cavaleiro da Rosa, história galante com toques cômicos e melancólicos, ambientada no século XVIII, com música como a de Don Juan, de 15 anos antes. Todas as futuras óperas serão belas, melodicamente irresistíveis, moderadamente modernas na harmonia e tradicionais quanto ao resto.

O público, não, mas historiadores e teóricos fazem restrições. Tal música violaria (pre?) conceitos estéticos de amplo curso. Um, o da obrigação de o artista ser subversivo na linguagem. Não se perdoa a Strauss que, cercado de inventores como os dodecafonistas, tenha permanecido ancorado ao idioma do século XIX. Outro, o século XX decidiu que, para se tornar grande, a obra de arte tem de ser difícil, áspera. Caso se dê sem sofrimento passa a ser considerada de segunda ordem. (É uma falta de atenção: Mozart se dá sem sofrimento.) Terceiro, acredita-se que cabe ao artista expressar sua subjetividade, suas emoções. Não acontece com Strauss. Mesmo expressiva, sua obra carece de um cometimento mais pessoal. Não é autobiográfica nem serve para exorcizar demônios, como a de seu contemporâneo Mahler. A alta expressividade resulta de domínio do métier, de eficazes recursos mobilizados para seduzir a plateia.

Claro que não há nisso nenhum crime. Os românticos criam no dever de sofrimento do artista. Desde os começos do século passado, pensa-se, porém, diferente. A obra de arte constitui uma construção articulada e não um grito de dor ou rebeldia. Mesmo as dores reais têm de ser revividas de outra maneira para se transformar em obra. E, enfim, Strauss viveu demais, até os 85 anos, em 1949. Seus primeiros lieder são contemporâneos aos de Brahms, suas deslumbrantes Quatro Últimas Canções, posteriores à bomba de Hiroshima. Se morresse 35 anos antes teria sido apenas um epígono romântico.

Resta falar dos mais de 200 lieder, a canção alemã para voz e piano cujo ápice se encontra em Schubert, Schumann, Brahms, Hugo Wolf e no próprio Strauss. Ouvidos requintados talvez acolham melhor seu lirismo que a garrulice algo bombástica dos poemas sinfônicos e das óperas. Strauss escreveu alguns lieder para voz e orquestra, entre eles as Quatro Últimas Canções, que encerram a série quando ele tem 84 anos. Banhadas de luz outonal, desvelam uma beleza arrepiante.

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