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Número 805,

Política

Análise/Wálter Maierovitch

Feliz aniversário, Putin

por Wálter Maierovitch publicado 22/06/2014 08h48
Oito anos depois, a Justiça russa condena os supostos assassinos da jornalista Anna Politkovskaia. O mandante continua desconhecido
ALEXEI NIKOLSKY / RIA-NOVOSTI / AFP
Vladimir Putin

Em outubro de 2006, uma jornalista russa, a mais odiada pelo então presidente Vladimir Putin, foi assassinada

Em moscou, na manhã do dia 7 de outubro de 2006, a jornalista russa mais odiada pelo então presidente Vladimir Putin foi assassinada no átrio do prédio onde morava e ao sair do elevador para se dirigir à redação do cotidiano Novaya Gazeta: no chão, uma pistola perdida na pressa da fuga.

A jornalista Anna Politkovskaia, alvejada por dois sicários postados no interior do edifício, tinha 48 anos e era conhecida internacionalmente por suas inúmeras reportagens a denunciar, no governo Putin, gravíssimas violações a direitos humanos, horrores da guerra na Chechênia, abusos das tropas federais e pantagruélicos esquemas de corrupção governamental.

Em dezembro de 1999, quando bombas caíam na periferia de Grozny, capital chechena, Politkovskaia deixou o bloco de anotações jornalísticas e promoveu a retirada de um asilo de velhinhos, todos com mais de 89 anos.

Na célebre tomada do teatro russo Dubrovka por guerrilheiros separatistas chechenos, terroristas segundo Putin, em outubro de 2002, Politkovskaia ofereceu-se como mediadora. Gerou a irritação de Putin por retardar a invasão. Na visão de Politkovskaia, a matança de cerca de 50 dos invasores do teatro poderia ter sido evitada com a negociação.

Dois anos antes da sua morte, Politkovskaia fora vítima de um tentado homicídio por envenenamento, fato que atribuiu ao serviço secreto russo. A propósito, tratava-se de velha tática da predileção dos agentes secretos e desde os tempos do soviético KGB: essa tática voltou a ser empregada em Londres, também em 2006, quando do envenenamento, com o radioativo Polônio, de Aleksander Litvinenko, ex-KGB, caído em desgraça ao acusar os seus superiores de um plano para assassinar o multimilionário dissidente Boris Abramovic Berezovski. Este, primeiro oligarca da fase pós-soviética e inimigo de Putin, vivia como exilado político na Grã-Bretanha e suicidou-se em março de 2013.

Perante a comunidade internacional, Putin ficou numa saia-justa e prometeu apurar o crime da jornalista. Nos funerais de Politkovskaia não apareceu nenhum representante do governo. A lápide da sepultura imita uma página de jornal escrito, toda furada por balas de arma de fogo.

Segundo o ex-presidente Mikhail Gorbachev, o assassinato de Politkovskaia representou “um crime grave contra o país, contra todos nós e um golpe à imprensa democrática e independente”. O mandante, para muitos russos, a quase unanimidade dos chechenos e inúmeros caucasianos, teria sido Putin. A pistola usada havia sido providenciada por Dmitri Pavluchenkov, chefe do distrito policial do bairro onde residia a jornalista e que, em processo criminal desmembrado, acabou condenado a 11 anos de cárcere duro. E descobriu-se que policiais lotados na Chechênia estiveram em Moscou no dia do homicídio da jornalista.

As investigações duraram oito anos e, na semana passada, a Justiça russa concluiu o processo criminal principal e o desmembrado. Para a Justiça, o jovem checheno Rustam Makhmudov matou a jornalista e o mandante era o seu tio Lom-Ali Gaitukayev, condenado à prisão perpétua. Na Corte de Justiça e após a cominação da pena, Gaitukayev protestou: “Me deem um motivo, um só, por que faria uma coisa dessas com uma desconhecida?”

Sempre segundo a Justiça, Rustam chegou ao prédio da jornalista na companhia dos irmãos Dzhabrail e Ibragim, condenados a 14 e 12 anos. A dar cobertura à operação, o policial Sergei Khadzhikurbanov, condenado a 20 anos de prisão, com trabalhos forçados em colônia penal.

A sentença definitiva pode, nos próximos dias, servir de biombo a Putin e isso para sustentar não ter qualquer responsabilidade pelo assassinato. Os dois filhos da jornalista alegraram-se com as condenações, mas avisaram que a batalha ainda não terminou, “pois queremos o mandante do crime”. O diretor de redação do Novaya Gazeta reagiu à sentença: ele também entende que se acoberta o verdadeiro mandante.

Este, na visão dos colegas da assassinada, seria Ramzan Kadyrov, à época ditador na Chechênia por nomeação de Putin. A intenção de Kadyrov teria sido, no fatídico 7 de outubro, dar um presente  a Putin, que aniversariava naquela data.
Na imprensa oficial, incluída a tevê estatal, as manchetes anunciaram o “finalmente feita a Justiça”. Para os incrédulos, a Justiça deu a Putin mais um presente, este tardio.

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