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Número 804,

Cultura

Brasiliana

Intervenções artísticas chegam à Cracolândia

por Ana Paula Sousa — publicado 20/06/2014 10h12
A experiência dos artistas que tentam se conectar aos viciados
Veronica Manevy
Cracolândia

Paulo Faria, diretor do grupo Pessoal do Faroeste

No fluxo, vive-se um tempo no qual não há horas e uma realidade da qual o delírio faz parte. Fluxo é o nome dado ao pedaço do Centro de São Paulo onde o crack é consumido e vendido livremente. Nesse lugar, geralmente interditado a forasteiros, os artistas do projeto Luz Solar tentam levar músicas, palavras e sons.

Parte do programa Braços Abertos, que desde janeiro busca novas abordagens para o problema do crack na região da Luz, o projeto de intervenção artística prevê a realização de oficinas ligadas à expressão corporal, percussão, teatro e música ao longo de um mês, de 24 de maio a 15 de junho. Os encontros acontecem nas tardes de sábado e domingo.

“A receptividade tem sido boa, e hoje, pela primeira vez, tentaremos entrar no Fluxo”, diz Paulo Faria, diretor do grupo teatral Pessoal do Faroeste, enquanto caminha pela Avenida Rio Branco. É ele quem coordena os cerca de dez voluntários que deixam a sede da companhia, na Rua do Triunfo, rumo à tenda do Braços Abertos, espaço sob responsabilidade da prefeitura localizado na Rua Helvétia, a poucos passos do Fluxo.

Na tenda, a chegada do grupo não chama atenção dos usuários que assistem a um filme na tevê de plasma. O vaivém de gente de fora – de autoridades a equipes de reportagem – parece ter se tornado rotina. Na saída, os artistas tentam aproximar-se do Fluxo. Postam-se do lado oposto da calçada. Um planta bananeira. Outro, caneta e papel na mão, senta-se a uma mesa. Sobre sua cabeça, um cartaz pergunta: “O que você diria numa carta?” Eliana Bolanho e Vera Abbud, da trupe As Graças, e o videomaker Dário José são os primeiros a pisar no Fluxo. Enquanto ele grava uma entrevista com Cabelo, “comerciante” que faz escambo com cachimbos, traquitanas e Bilhete Único, as atrizes pegam o violão e começam a cantar.

Milena, gorro na cabeça e cachaça na mão, encanta-se com o dueto feito ao pé do ouvido: Moreninha, se eu te pedisse/De modo que ninguém visse/De modo que ninguém visse/Um beijo, tu me negavas.

Com seu fiapo de voz, Milena retribui a canção e improvisa versos em ritmo de rap: A galera manda um abraço/ Pro pessoal do poeta (...) O violão eu adoro/ Mas isso eu não sei tocar (...) Mais uma música pra você/ E aí eu vou embora/ Porque a cachacinha aqui/ Não pode se acabar (...). Ao fim, aperta as mãos de todos que estão na roda. “Beijo, galera. Obrigada, meninas. Que deus abençoe vocês”.

Imediatamente, Moisés, recém-chegado de Porto Seguro e alojado em um albergue, pede o violão e começa: Um velho calção de banho/ o dia pra vadiar...

Ao fundo, a silhueta da estação Júlio Prestes. À esquerda, o terreno cercado: “Futuras instalações do Corpo de Bombeiros – É Proibida a Entrada”. Em torno da roda, isqueiros, cachimbos, garrafas PET com pinga, pedaços de guarda-chuva, encostos de cadeira, pés de sapato sem par, embalagens de cigarro Eight, caixas de leite Italac. Moisés não para: Temos nosso próprio tempo/ Temos nosso próprio tempo...

 

De repente, uma moça magérrima, cambaleante, de vestido azul-celeste, nas mãos duas bexigas de festa infantil, também azuis, captura o olhar do músico. Moisés olha para ela, para as atrizes, para a roda que cresce e transforma usuários em backing vocals e percussionistas, e diz: “Posso cantar mais uma? Isso é pra todos nós aqui”.

A paz/ invadiu o meu coração/ De repente, me encheu de paz...

Alguns usuários erguem os braços no ritmo da música. Os forasteiros ficam com os olhos rasos d’água. O sarau de Moisés dura mais de uma hora. Relatos saídos da pedra se embaralham às letras das canções. Enquanto ele canta, Pai Tal fala de antigos mortos e chora diante do inexplicável que o subconsciente traz à tona. Hélio, que passou três anos livre do vício, lamenta ter sucumbido de novo. Um jovem de ar esquivo xinga policiais e “maloqueiros” que não existem.

As duas horas e meia passadas no Fluxo voam. São tensas. Afetuosas. Poéticas. Um senhor carioca, tipo distinto e engraçado, discursa: “Eu vou mandar ofício e determinar que vocês venham aqui um dia sim e outro também. Vou colocar na Constituição. Quero agradecer vocês. Mas eu estou com pressa e já estou indo embora”.

Ele segue para o meio do Fluxo, onde ficam os traficantes, e some entre centenas de homens e mulheres fechados em seus mundos silenciosos. Os artistas também partem. De volta à sede do Pessoal do Faroeste, fazem um balanço da tarde. Dividem impressões, experiências e medos. Paulo Faria pondera que eles não são psicólogos nem assistentes sociais: “Não sabemos onde essa loucura vai dar. Mas sinto que construímos algo potente. Estamos, com a arte, criando uma zona de afetividade e fazendo uma intervenção poética”. É um começo.

*Reportagem publicada originalmente na edição 804 de CartaCapital sob o título "Pedras, Músicas, Palavras e Afeto"

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