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Número 804,

Cultura

Livro

O cinema decodificado

por Orlando Margarido — publicado 07/08/2014 05h26, última modificação 10/09/2014 18h48
Como a crítica do francês André Bazin, reeditada, repercutiu no Brasil
André Bazin

André Bazin (foto) fundou um pensamento que refletiu na obra de críticos com Paulo Emílio Salles Gomes

Ao combinar a defesa radical das ideias com o respeito a posturas divergentes, o crítico francês André Bazin (1918-1958) influenciou de forma decisiva a reflexão sobre o cinema. Em menos de duas décadas, contribuiu para moldar a cinefilia entre novas gerações, fundou os Cahiers du Cinéma, revista até hoje emblemática, e se fez mestre para a turma dos jovens críticos e realizadores batizada de nouvelle vague, com quem dialogava nas aspirações e diferenças. O espírito aberto, a sensibilidade e a sofisticação literária do teórico formaram admiradores internacionalmente, em um processo que pode agora ser mais bem avaliado por meio de dois lançamentos editoriais.

Talvez pela personalidade mais curiosa do que imperativa, uma das obras catalisadoras do ideário de Bazin propunha uma interrogação. O Que É o Cinema? (Qu’est-ce que le cinéma?) foi o título de um conjunto de seus escritos lançados entre 1959 e 1961 na França e resumidos em volume que ganhou versão brasileira em 1991, esgotada. Tal condensação regressa pela CosacNaify acrescida de sete textos, uma introdução e um apêndice (Bazin no Brasil) do professor Ismail Xavier. Permanecem ensaios assinados em publicações como Esprit, Les Temps Modernes e Cahiers.

Sem nunca ter escrito uma suma de seu pensamento, Bazin nos legou nesses capítulos uma teoria, uma concepção da história do cinema. Nela, análises de Orson Welles e Jean Renoir se notabilizaram, resultando posteriormente, nos casos dos dois personagens, em livros específicos (aquele sobre o cineasta francês permaneceu inacabado em razão da morte do crítico, por leucemia). No prefácio, o autor diz ter renunciado a unir os artigos na continuidade de um ensaio “por receio de cair no artifício didático, preferindo confiar no leitor” para uma aproximação intelectual entre eles.

Prática fundamental na escrita de Bazin era abarcar da biografia de um realizador a uma cinematografia ou apenas um filme, o que fez com especial atenção em dez ensaios nos quais destacou o neorrealismo. Argumentava que, apesar de a tendência se inclinar à repetição durante o pós-Guerra, o diretor Vittorio De Sica a renovava com Ladrões de Bicicleta. Não sem desculpar a presunção, Bazin analisa o período e envia carta ao colega italiano Guido Aristarco (Cinema Nuovo) com o título Defesa de Rossellini.

Há análises mais amplas como em Ontologia da Imagem Fotográfica, cotejamento com as artes plásticas, ou Montagem Proibida, no qual discorre sobre sua tese do cinema como “uma janela para o mundo, para a vida”. Segundo Bazin, o filme deveria existir em direção contrária à da montagem, respeitando o tempo e a fluência da realidade, e neste ponto não recebia o apoio de muitos dos “jovens turcos”, como foram chamados por sua confrontação com um cinema tradicional “de qualidade” François Truffaut, Eric Rohmer e Claude Chabrol, entre outros. Bazin viria a bater de frente com eles nesse conceito. No entusiasmo pelos diretores americanos que o crítico aproximou da França, como Orson Welles ou William Wyler, ou do gênero segundo ele por excelência de Hollywood, o western, a rivalidade se daria com Jean-Luc Godard.

A liberalidade do chefe dos Cahiers permitia aos jovens expor na revista a oposição. Outro aspecto cordial se vê na boa convivência do católico militante Bazin com Georges Sadoul, notável historiador e crítico stalinista. A expressão radical das ideias e até mesmo a luta quando necessária são lembradas em 1968, quando seus discípulos vão às ruas defender Henri Langlois do afastamento da Cinemateca Francesa. A passagem, assim como as relações com a nouvelle vague e seu mentor, é lembrada na exposição organizada na instituição em homenagem a um de seus fundadores, em Paris até 3 de agosto.

Muitos dos eixos do pensamento de Bazin se refletiram no debate crítico no Brasil. Mas Xavier ressalva que não tanto pela figura do crítico, mas pela revisão do cinema clássico em andamento. Em especial, um grupo mineiro em torno da recém-fundada Revista de Cinema, originada no Centro de Estudos Cinematográficos de Belo Horizonte (CEC), tomou a frente sob a liderança de Cyro Siqueira, Jacques do Prado Brandão, Guy de Almeida e José Roberto Duque de Novaes. O legado de críticos e teóricos de todo o País vem à luz na antologia em dois volumes Revista de Cinema pela editora Azougue.

Organizados por Marcelo Miranda e Rafael Ciccarini, os livros reúnem textos de 1954 a 1957, 1961 e 1964. O neorrealismo ocupa bocado significativo, uma vez que havia maior sintonia com a crítica italiana, deixando à francesa pontos de contato, outros de questionamento. No elo entre a antologia de Bazin e esta, Xavier contextualiza que a turma da Revista era múltipla em suas posições e de dominante laica na atividade, “o que propiciava uma riqueza de debate interno” favorável ao leitor. Isto se dava também pelo espectro ideológico, tanto no grupo da casa como entre colaboradores, e será Siqueira, morto em março último, a expor o que os movia em Problemas Estéticos do Cinema: A revisão do método crítico. Junto a ele eram assíduos Salviano Cavalcanti de Paiva, os também realizadores Alex Viany e Maurício Gomes Leite, Fábio Lucas, Silviano Santiago, Fritz Teixeira de Salles e Paulo Emílio Salles Gomes. Mais do que as lições de convergência, que se fazem notar na predileção de Bazin por Welles, mas menos na assimilação da idolatria por Hitchcock, Howard Hawks, Samuel Fuller e dos próprios dogmas dos Cahiers, o feito em aproximar os lançamentos está na virtude da complementaridade que tanto animava o crítico francês.

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