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Número 803,

Sociedade

Cariocas

As minhas Copas

por Carlos Leonam — publicado 10/06/2014 04h27
Lembranças de alguns episódios marotos e de suspeitas confirmadas. Por exemplo, França 98 e aquele discurso do Chirac
Arquivo pessoal

Da de 1950, vagas lembranças. Tinha 11 anos e só fiquei triste por causa da traumática fossa de meu pai, abalado com a derrota para o Uruguai. Chegou a achar que nunca mais ganharíamos, já que perdemos aqui. Jamais conseguiu se lembrar de como voltara do Maracanã para casa. E dizia que, se Heleno de Freitas tivesse jogado, Obdulio não faria o que fez. Então veio a de 58, com o garoto Pelé e o sonhado título.

Pulemos para a de 66, na Inglaterra. Depois de eliminados, João Saldanha e eu resolvemos virar turistas. No Museu Britânico, diante das frisas do Partenon, dos deuses alados dos assírios e pilhagens tais, João virou-se para mim e disse: “Você acha que os ingleses perderão em casa? Roubaram o mundo inteiro, por que não roubarão agora? O Stanley Rous (então presidente da Fifa) é o último corsário da Rainha e, por isso, a Copa está no papo. Roubada, é claro”. (Grande João. Dito e feito. Roubaram na final com a Alemanha e conquistaram a Jules Rimet.)

Infelizmente, não pude estar no México, em 70, o que me deixou com uma tremenda dor de cotovelo. Pela primeira vez assisti a uma Copa pela televisão. Sempre ao lado de Danuza Leão, numa corrente para a frente que terminava a cada jogo numa comemoração etílica no Antonio’s.

Então veio a de 74, na Alemanha. Nessa, fui chefiando a equipe do Canal 100 – o que resultou no documentário Futebol Total. Desde a primeira partida, passei a receber, no centro de campo, o galhardete que me era entregue pelo capitão Marinho, para ser levado a Antonio do Passo, chefe da delegação. É que, na estreia, a coisa “regulara” e tinha de ser repetida a cada jogo. Como não pude entrar em campo contra a Holanda, talvez a nossa derrota tenha sido causada por isso.

Na de 82, fui para a Espanha com a turma do Globo. Contra a Argentina, quando Passarela acertou uma porrada em Zico, dei um berro patriótico: “Passarela, seu filho da puta!” No intervalo, fui cumprimentado pelos milicos da comissão técnica e levei uma bronca de Havelange, que me chamou para dizer que jornalista não podia se manifestar daquela maneira. Depois, na saída do Sarriá, chorando pelo fiasco contra a Itália, Sérgio Cabral e eu fomos consolados por um garoto: “Não chorem, não. Vocês ainda fazem o melhor café do mundo...” Quase apanhou.

Na Itália, 90, o fiasco daquele time de Lazaroni foi acompanhado pela morte de João Saldanha, em Roma. Perdi um amigo do peito que, apesar de nossa diferença de idade, sempre fora um companheiro de todas as horas, fosse numa Copa, fosse em manhãs vadias da Praia de Ipanema.

A cada jogo, em 94, nos EUA, ligava de um orelhão, fazendo comentários que entravam ao vivo na resenha da TVE. Na de 98, o Dia.  Acho que quase ninguém viu, pela tevê, o presidente Chirac, na véspera da final, garantir aos franceses que não tivessem dúvidas, seriam campeões. Estranha, muito estranha essa certeza. Principalmente diante do que aconteceu a Ronaldo.

Bem, foi mais ou menos isso. Há, claro, outras lembranças. Devo dizer, ainda, que, desde 54, meu tempo é marcado de quatro em quatro anos. Agora, no entardecer de minha vida, a Copa será no Brasil. Espero que não seja igual à de 50, que tanto entristeceu o meu pai. E o Brasil.