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Número 802,

Política

Análise / Vladimir Safatle

Sem tempo

por Vladimir Safatle publicado 02/06/2014 04h37, última modificação 26/06/2014 14h26
A urgência de uma parcela da sociedade que não aceita mais a covardia das falsas prudência e segurança

Há indivíduos que não têm mais tempo. Isso significa duas coisas. Primeiro: eles procuram fazer ouvir a urgência, o tempo do que não quer mais esperar. Conhecem uma certa covardia que gosta de se travestir com as formas da prudência, segundo a qual devemos ir aos poucos, sem violência, conservando o que se ganhou para avançar com mais segurança. Parece prudência, mas não é. Trata-se apenas da estratégia clássica de quem tira do horizonte as condições para as transformações globais, estando disposto a, inclusive, apelar ao discurso do medo, baseado em argumento do tipo: “Se sairmos, tudo voltará e será ainda pior, por isso, mesmo se não somos mais capazes de fazer as pessoas sonharem com futuros diferentes do que temos no presente, melhor deixar-nos no comando”. Esses indivíduos não querem mais viver submetidos ao medo. Querem criar e por isso resolveram viver como quem não tem mais tempo.

Dizer que há cidadãos que não têm mais tempo significa também dizer que eles perderam seu lugar. “Ter tempo” significa saber lidar com a ordem das coisas, encontrar um lugar no interior desta ordem. Não ter mais tempo significa não encontrar um lugar para si e não temer afirmar isso com toda a força. Significa ter a sensação de viver em um filme no qual já se viu mais de uma vez, com personagens que pronunciam frases que nem sequer eles mesmos acreditam, mas que devem ser repetidas cerimoniosamente, até porque não se sabe dizer de outra forma.

Se ouvimos cada vez mais indivíduos a dizer que não se sentem mais representados, que não aceitam mais se organizar a partir das ordens tradicionalmente aceitas, que não fazem mais os cálculos que até agora pareceram os únicos possíveis, é porque tais sujeitos, no fundo, têm consciência de que precisarão habitar por um tempo um lugar sem tempo.

Neste lugar, é certo, erra-se muito. Errar-se nos dois sentidos da palavra. Age-se de forma equivocada e entra-se em um “errância”. Mas como dizia o velho Hegel: “O medo do erro esconde, muitas vezes, o medo da verdade”, ou seja, o medo de, por meio dos erros, criar as condições para a constituição de uma experiência produtiva da ordem da verdade. Pois, quando se entra em uma “errância”, pode-se enfim começar a descobrir situações novas. Ou seja, aqueles que compreenderam enfim não ter mais tempo errarão bastante, alguns tentarão desqualificá-los por meio de caricaturas, outros dirão que eles simplesmente não sabem agir. Eles começaram, no entanto, um processo lento e doloroso que lhes permitirá, ao fim e ao cabo, pensar e agir de outra forma.

Nosso país chegou a um ponto de esgotamento. Há de se dizer isso com clareza. O pior de tudo nessas horas de esgotamento é a postura de quem tem consciência de tal esgotamento e ridiculariza aqueles que erram, pois aprendeu a acomodar-se bem em uma descrença tranquila que gosta de chamar de sabedoria, de quem já teria visto tudo. Como quem aprendeu a construir uma casa aparentemente segura no meio de um campo de ruínas. Sempre se tem boas justificativas para o cinismo e a mais usada delas é um certo ceticismo protoesclarecido.

Melhor do que esse protoesclarecimento é a postura de quem sabe que, à sua maneira, tudo está apenas no começo. Esta é a primeira vez na história recente do Brasil na qual um ciclo de poder se esgota sem que outro esteja em gestação. O esgotamento de um ciclo não significa que partidos hegemônicos não ganharão mais eleições. Significa que eles não serão mais representantes de nenhuma potência de transformação. Por isso, reduzirão a política à arte de fazer os cidadãos deixarem de acreditar que poderiam conseguir algo diferente do que já se têm.

Foi assim durante algumas décadas na Europa, com sua divisão entre conservadores e sociais-democratas. Uma divisão que se foi esvaindo até ficar praticamente impossível distinguir quem está realmente no poder, quais as políticas que realmente os diferencia. O resultado foi claramente visto no domingo 25. O avanço da extrema-direita foi causado pela incapacidade da esquerda de realmente ser esquerda. Um pouco como vemos hoje em nosso país.

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