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Número 802,

Cultura

Exposição

Salvador Dalí, entre o real e o delírio

por Orlando Margarido — publicado 20/09/2014 09h23
Obras dos anos 1920 e 1930, estudos e documentos estarão em mostra que começa em outubro no Instituto Tomie Ohtake
Reprodução
El sentimiento

No relógio mole de "O sentimento de velocidade" (1931), o tempo e a sexualidade

De Salvador Dalí (1904-1989) não se pode dizer ao certo o que é real e imaginário, onde começa a invenção e o delírio, exceto, talvez, no que se refere aos conhecidos bigodes pontudos. Essas antenas da criatividade, como proclamava, guiaram-no por uma obra fundada na dimensão do irracional, dos devaneios, na acepção onírica e ilógica que comandava os surrealistas. Mas o pintor não foi por acaso um adepto de primeira hora e o mais popular representante do movimento artístico francês detonado por André Breton no início dos anos 1920. Também se esmerou durante toda a vida em criar uma figura extravagante, excêntrica, fazendo das atitudes pessoais o que considerava ser arte, opinião nem sempre corroborada pelos críticos. Em um desses arroubos falsificou ele mesmo milhares de seus trabalhos em busca não só do gesto estético. Queria a fama em doses grandiloquentes, como se acostumou em tudo o mais, ao ilustrar livros, escrever e colaborar no cinema.

Um tanto dessas duas frentes, da obra e do homem, nos traz a mostra do que desembarca em outubro no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. São 109 trabalhos, entre pinturas, desenhos e gravuras, além de documentos e fotografias que totalizam 150 itens. Pode-se apontar certa modéstia se for levado em conta que se presume em mais de 700 obras o espólio, digamos, autêntico de Dalí.

Para uma comparação, uma exposição do pintor em 1998, que circulou entre o Museu Nacional de Belas Artes e o Masp, trouxe perto de 500 peças, mas apenas 34 eram pinturas. Dessas, depreendiam-se exemplares de fases irrelevantes, aquelas em que o autor tratou somente de reproduzir a temática e o estilo célebres, sem adicionar um fato original. Desta vez, a conta está mais favorável aos anos 1920 e 1930, sua melhor produção, com 17 entre as 29 telas enviadas, a mais tardia de 1983.

Em parte isso se explica pela origem da seleção nas instituições europeias que abrigam um quinhão representativo do legado de Dalí, o Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri, o Museu Salvador Dalí, na Flórida, e a Fundação Gala-Salvador Dalí, em Figueres, onde Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech nasceu e fez sua primeira incursão nas artes.

Que não se espere, no entanto, apreciar A Persistência da Memória, de 1931, um de seus quadros mais famosos e emblemáticos, integrante do acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York. Nos relógios moles está a evocação do tempo, tema que o perturbava sobretudo em relação à morte, mas para muitas análises de especialistas um símbolo da falta de potência sexual. No caso, a do próprio autor. Mas para essas referências da sexualidade, caras a quem tanto prezava Freud, não faltam exemplares na mostra, como A Memória da Mulher-Criança, de 1929, na qual se denota o rosto feminino em êxtase, outra de suas obsessões exploradas também em série fotográfica presente.

O recorte da curadora Montse Aguer, responsável pelo centro de estudos da fundação catalã, propicia mais a compreensão ampla do que o aprofundamento no universo de Dalí. Dessa forma será possível reconhecer a fonte primária e talvez surpreendente por sua singeleza de boa parte do repertório do pintor. Quando garoto, Dalí se encantou com uma reprodução barata, pendurada na parede da escola, de Angelus, tela do pintor romântico francês Jean-François Millet. Nela se veem dois camponeses ao fim da lida do dia, frente a frente, supostamente marido e mulher ou um fazendeiro e sua serva, numa postura de reza. Dalí insistia ser na verdade uma prece ao filho morto do casal e fez da imagem a pedra de toque de muitas de suas pinturas, um reforço ao tom espectral dos personagens, em contraponto à solidez como rocha, a exemplo do que surge em As Sombras da Noite Que Cai (1931) e Figura e Drapeado em uma Paisagem (1935).

Mesmo quando se dedica a ilustrar livros, a influência aparece, caso da edição de Os Contos de Maldoror, da qual veremos a íntegra com as 52 águas-fortes e 30 desenhos. O impacto da obra de Millet o levaria à decisão de estudar arte e, ao ser acolhido pela família do pintor Ramon Pichot, seu vizinho, descobre na coleção deste o impressionismo. Poucos anos depois das primeiras aulas, Dalí toma do movimento francês suas primeiras inspirações e assina óleos aqui expostos como Retrato de Pai e Casa de Es Llaner (1920) e O Caminho de Portlligat com Vista sobre o Cabo de Creus (1921). Mas apenas como passagem a um tardio Cubismo, fase em que se destaca aqui um autorretrato de 1923.

Ainda sob a égide da obsessão por Millet, Dalí abre os anos 1930 com uma descrição do método batizado “paranoico-crítico”, em que lança os fundamentos de sua obra, numa espécie de manifesto surrealista à sua maneira. A essa altura, em Paris, ele se integra ao movimento de Breton, apresentado por Joan Miró, conhece Luis Buñuel, com quem realiza os filmes Um Cão Andaluz e A Idade de Ouro, e em especial Elena Dmitrievna Diakonoff, a Gala, então mulher do poeta Paul Eluard.

De imediato, a paixão correspondida pela russa tem duas ocorrências na biografia conhecida do pintor, de declarada preferência homossexual: a perda da virgindade e o fim da impotência sexual. A longo prazo, Gala se tornaria musa inspiradora e seria representada em diversas telas, como em O Angelus de Gala, apresentada numa edição em fac-símile, ou o óleo O Pé de Gala, aqui em versão estereoscópica. Também se tornaria a principal articuladora de sua carreira, incitando o marido em sua veia performática e avidez pelo mercado, para que, em produção caudalosa, fossem pagos os altos custos da vida de luxo do casal. Sobre esse apetite comercial inesgotável, Breton lançou mão de um anagrama com o nome do pintor e apelidou o colega, de quem havia se afastado, de Avida Dollars.

Nesse contexto Dalí passa a falsificar a própria obra. Assinou, estima-se, mais de 30 mil folhas em branco para que fossem utilizadas ao prazer de quem quisesse preenchê-las. Daí o sintoma, alegam os especialistas, de não ser possível garantir a autenticidade dos desenhos, até mesmo os que chegam agora apresentados por instituições sérias. Melhor, portanto, considerar suas pinturas da primeira fase original, a exemplo dos personagens incongruentes de Figuras Tombadas na Arena (1926) e das paisagens desoladas como em O Sentimento da Velocidade (1931) e Composição Surrealista com Figuras Invisíveis (1936).

Ainda que não conjugue de um frescor inicial e sim de repeteco, Velocidade Máxima da Madona de Rafael (1954) tem o fator da influência renascentista e o dogma surrealista, somado a outro dos entusiasmos de Dalí, a física nuclear. Ele que se dizia um mau pintor, inapto à perfeição, também parecia simular a modéstia. Seus escritos autobiográficos levaram o nome de Diário de um Gênio. Não o era, porém, para alguns estudiosos. O italiano Giulio Carlo Argan foi severo ao considerar sua obra um delírio de grandeza, “uma pomposa retórica espanholesca e neobarroca, uma ambígua miscelânea de reacionarismo e anarquia”. Mas Dalí permanece na imaginação do público, como tanto quis.