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Número 802,

Cultura

Música

As reverenciadas baquetas de Wilson das Neves

por Adriana Del Ré — publicado 19/09/2014 03h35
Baterista carioca é tema do documentário 'O Samba é meu Dom' e de biografia que será lançada no ano que vem
Pedro Garrido
Wilson das Neves

"Quem quiser tocar comigo me chama que eu vou, ô sorte", apregoa Wilson das Neves

Dono de uma das baquetas mais reverenciadas da MPB, o baterista carioca Wilson das Neves dedica quase 60 de seus 77 anos de vida à música. Mãe doméstica, pai funcionário de uma empresa de telefonia, nasceu no bairro da Glória e ainda criança se mudou para São Cristóvão. Quando não era a trilha sonora das festas na casa da tia, ouvia o tambor forte no candomblé. Dança, música, canto, harmonia, estava tudo ali. Só aos 18 anos teve condições de estudar música, quando começou a servir no Exército e pôde bancar o curso de bateria. Um ano depois de dar baixa no quartel fazia pequenos bailes e assim emendou trabalho atrás de trabalho. Gravou com mais de 750 artistas e acompanhou mais de cem, entre eles Elis Regina e Elizeth Cardoso.

Além de ser tema do documentário O Samba é Meu Dom, direção de Cristiano Abud, Das Neves é objeto da biografia Memórias de um Imperador. Ô Sorte, de Guilherme de Vasconcellos Almeida, a ser lançada no próximo ano. O livro tem aval do músico, o que o afasta da polêmica sobre as biografias não autorizadas, cujo projeto pela liberação foi aprovado dia 6 pela Câmara dos Deputados. Diplomático, prefere não tomar partido. “Cada um tem sua maneira de pensar, eu respeito”, diz, numa referência à turma do Procure Saber, Chico Buarque, Caetano Veloso e outros, que em 2013 se pronunciou a favor da autorização prévia dos biografados. A depender do baterista, Almeida pode conduzir a obra como quiser. “Não tenho nada a esconder, é só não dizer mentira e está tudo bem.”

Defende, no entanto, receber parte sobre o valor das vendas. “Quero que deem o meu.” Assim será com Memórias de um Imperador. Ô Sorte. O autor está de acordo: “Das Neves abriu a vida dele, os contatos”. A porcentagem ainda não foi definida. O livro não chega a ser uma encomenda, pois a ideia partiu do autor. Professor de História em Curitiba, o paulistano Almeida era fã do baterista quando o conheceu em 2005, na capital paranaense. Seis anos mais tarde, enquanto dirigia, ouviu numa emissora de rádio o samba Wilson, Geraldo e Noel, de João Nogueira, e decidiu escrever um livro sobre Wilson das Neves.

Com tantas “horas de voo” acumuladas atrás da bateria, Das Neves tornou-se mestre notório dos jovens músicos. Modesto, não hesita em se definir como aprendiz. Esse intercâmbio de gerações converteu-se em muitas parcerias, no palco, com BNegão, Quinteto em Branco e Preto, entre outros. Em discos, com “garotos” como o rapper Emicida, que o convidou a fazer participação especial em seu álbum de estreia, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, lançado no ano passado. Ele está na polêmica faixa Trepadeira, tachada de machista. Para Das Neves, a música é uma sátira. “Tem de entrar no clima da coisa. As pessoas vivem de criticar as outras, vivemos em um mundo de jurados.”

Polêmicas à parte, ele quer mais é continuar a receber convites. Em agradecimento ao que recebe dos amigos e da vida, solta um sonoro “ô sorte”. O bordão virou sua marca registrada e não raro é recepcionado com a mesma calorosa saudação. O músico não leva sozinho o crédito pela criação da expressão. “O bordão é meu e do Roberto Ribeiro, que era cantor da Império Serrano. Quando me viu tocando tamborim na escola, me disse: ‘ô sorte’. Aí quando nos encontrávamos eu dizia ‘ô sorte’, ele dizia ‘ô sorte’.”

Em seu quarto e mais recente disco-solo, o mantra está no título: Se me Chamar, ô Sorte (MPB/Universal). Assim como nos três álbuns-solo anteriores, voltou a assinar as composições e a interpretar. Em seu caso, a vontade fez o compositor e a necessidade, o intérprete. Acumulava duas décadas de labuta quando começou a compor, em 1973. “Eu pensava em fazer isso antes, mas nunca parava”, lembra ele, que tem cerca de 200 composições. Encarar para valer o desafio de cantar veio mais tarde, por acaso. Após tocar durante anos para outros artistas, em 1996 foi convidado a gravar suas canções no que viria a ser seu primeiro disco-solo, O Som Sagrado de Wilson das Neves. Apesar de ter cantado antes, imaginava outro a dar voz às suas músicas. Mas quem seria? Pediram então para ele mesmo as cantar.

Em uma daquelas ironias da vida, em 1996 ganhou o prêmio Sharp na categoria cantor revelação com o mesmo disco-solo de estreia. Tinha 60 anos e uma carreira consolidada. Das Neves lida com bom humor com o reconhecimento de seu lado intérprete.  “Acho que canto melhor do que toco, porque como músico só ganhei um prêmio e como cantor foram três. São fases da vida da gente. Tenho de aproveitar. Me chamam mais para cantar do que para tocar atualmente, está ótimo. Não tenho preconceito.”

Integrante da banda de Chico Buarque há 29 anos, muitas vezes é convidado pela “chefia” a dar uma palhinha como cantor. “Ele é maravilhoso para se trabalhar porque divide o palco com a gente.” Com Chico assina parceria em Samba para João, do disco Se me Chamar, ô Sorte, feita em homenagem ao bisneto de 4 anos. Faixa e CD ganharam o 25º Prêmio da Música Brasileira 2014 nas categorias Melhor Canção do Ano e Melhor Álbum de Samba. Das Neves é o único músico da família. Os dois filhos seguiram a área esportiva e os três netos ainda não manifestaram interesse em trilhar o caminho do avô. “Aprendi e continuo aprendendo. De tudo o que aparece na frente eu tiro uma casquinha, presto atenção e procuro fazer da melhor maneira possível. Quem quiser tocar comigo me chama que eu vou, ô sorte!”.

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