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Número 801,

Cultura

Literatura

Philip Roth se cala

por Robert McCrum — publicado 29/08/2014 08h00, última modificação 10/09/2014 18h41
Escritor declara à BBC que não dará mais entrevistas e que, após seis décadas de literatura, apenas jogará conversa fora
Orjan F. Ellingvag/Dagbladet/Corbis/Latinstock
Philp Roth

"Parti para a grande tarefa de não fazer nada. Foi um ótimo tempo nos últimos três, quarto anos"

Em novembro de 2012, quando o escritor norte-americano Philip Roth declarou à revista francesa Les Inrocks que saía de campo (“Para dizer a verdade, estou acabado”), houve descrença geral. Com certeza um romancista que havia se dedicado tão intensamente à sua arte quanto Roth não poderia estar falando sério. Seria possível que Nêmesis, seu 24º romance, fosse o último? Bem, sim, foi. Em uma entrevista à BBC, Roth não apenas confirma sua aposentadoria literária como também, com uma alegre determinação, garante à câmera: “Esta é minha última aparição na televisão, minha absoluta última aparição em qualquer palco, em qualquer lugar”.

Ao evocar Joe Louis, o famoso boxeador peso pesado americano, Roth dá sua última palavra, tipicamente inteligente e premeditada: ele fez “o melhor que pôde” com o que tinha. Trata-se de uma boa aposentadoria. As vidas literárias muitas vezes acabam mal, com saúde fraca, rejeição e desdém, um destino que Roth preveria em suas narrativas. Mas ele dedicou sua longa e notável carreira literária a se reinventar de inúmeras maneiras provocativas. E hoje, aos 81 anos, continua a fascinar seu público.

No dia 20 de maio, a BBC transmitiu sua “última entrevista”, uma conversa de despedida com Alan Yentob em duas partes, gravada na residência do escritor em Manhattan e destinada a um filme dirigido por Sarah Aspinall para a produtora Imagine. Esse último episódio do longo adeus de Roth mostra o romancista, que alguns consideram o maior escritor norte-americano vivo, em um clima de animada descontração. Até então, ele admite, não quis “falar, falar, falar, falar”. “Agora que não escrevo”, diz, “quero jogar conversa fora.” Inevitavelmente de olho em seus leitores, a conversa do escritor é toda sobre o personagem polivalente de sua carreira.

Roth teve muitas vidas literárias. Primeiro foi o autor menino prodígio de Adeus, Columbus (1959), uma estreia marcante no pós-Guerra. Depois veio o enfant terrible de O Complexo de Portnoy (1969), a sensação cômica do fim dos anos 1960, chamado de “um choque selvagem e blue pela revista Life. “Consegui a fama literária”, lembra ele. “Consegui a fama sexual e também a fama de louco. Recebi centenas de cartas, cem por semana, algumas delas com fotos de garotas de biquíni. Tive muitas oportunidades de estragar minha vida.” Então ele começou a se retirar com uma espécie de rancor e tornou-se o satírico experimental de Our Gang (1971) e The Breast (1972). Depois, no início da meia-idade, Roth continuou a exploração de seu ser turbulento em My Life as a Man (1974) e O Professor do Desejo (1977). Mais tarde nutriu um alterego literário mais seguro em seus romances sobre Zuckerman.

O melhor, contudo, estava por vir. Em 1967, Roth embarcou em uma série de novelas bem elaboradas, reinvenções do passado recente da América, que foi saudada pela crítica norte-americana e europeia. Em Pastoral Americana, Casei com um Comunista, A Marca Humana, O Animal Agonizante e Complô Contra a América havia uma vigorosa negação do comentário amargo de Scott Fitzgerald, segundo o qual “não há segundo ato na vida dos americanos”. Nenhum escritor na memória viva teve um surto tão extraordinário no final da carreira. O relato do próprio Roth de sua mudança de pessoal para público é que, como ele diz, “no início tem a ver com o amadurecimento (de Roth), seu desenvolvimento como escritor. Depois não é sobre ele. Ele é o ouvido, a voz, ele é o observador, é o olho”. Antes de sua aposentadoria em 2012, o tom de Roth tornou-se de despedida (Fantasma Sai de Cena, 2007), mas ainda desafiador (Indignação, 2008).

Na velhice, assegura, “a última coisa que eu queria fazer era ser mais visível do que era. A visibilidade me irritava. Por isso me mudei para o campo”. Roth retirou-se para uma casa de fazenda isolada em Connecticut. Ele descreve, quase pela primeira vez, as condições nas quais escreveu a série de novelas que se seguiram a Pastoral Americana.

“Eu acho muito agradável viver na beleza natural do lugar que tenho em Connecticut. Trabalho durante o dia, faço um pouco de exercício no fim do dia”, ele costuma nadar, “e assim não perdi o contato com o que tenho feito o dia todo”. Durante muitos anos, passou horas de pé junto à sua escrivaninha, para poupar as costas, dia após dia. “Então, quando emperro, e emperro com frequência, saio pela porta e estou no mato. Caminho durante dez minutos e volto para tentar de novo.” Roth cita seu próprio personagem, Zuckerman, para explicar essa dedicação monástica: “Acredito que só devemos ler os livros que nos mordem e picam. Se um livro que estamos lendo não nos desperta com um soco na cabeça, por que lê-lo?”

Em 1976, Roth mudou-se para Londres para viver com a atriz Claire Bloom. Mas não se sentiu em casa. “Eu não poderia escrever um livro longa-metragem sobre Londres”, diz ele hoje. “A Inglaterra me transformou num judeu em apenas oito semanas.” Aqui, a conversa de Roth cobre um território muito polêmico, incluindo as repetidas acusações da suposta misoginia do romancista. Mas um detalhe fascinante é omitido. Segundo Yentob, quando Roth foi à festa de 70 anos do maestro Leonard Bernstein, sentou-se ao lado da atriz Ava Gardner, que vivia reclusa em Londres havia vários anos. Gardner, que fora casada com Frank Sinatra, brincou com Roth: “Eu costumava namorar um rapaz de Hoboken”, e a dupla passou a noite em uma intensa conversa. Durante sua entrevista à BBC, Roth às vezes desafia Yentob: “Vamos lá, pergunte sobre Ava Gardner”, mas a discrição parece ter prevalecido. “Deixaremos isso para Blake Bailey (o biógrafo de Roth)”, disse Yentob com timidez.

Roth nunca pareceu tão descontraído ou satisfeito. Geralmente um coquetel de vaidade, otimismo e desafio, aguçado por pura necessidade econômica, mantém os velhos autores no jogo muito tempo depois de deverem ter saído. Roth superou as expectativas. Quando desafiado com sua declaração de 2004 de que “não podia conceber uma vida sem escrever”, ele responde: “Eu estava errado. Tinha chegado ao fim. Não havia mais nada sobre o que escrever”. Com um lampejo de franqueza, acrescenta: “Eu temia que não tivesse nada para fazer. Estava aterrorizado, na verdade, mas sabia que não adiantava continuar. Eu não ia melhorar. E por que piorar? Assim... Parti para a grande tarefa de não fazer nada. Passei um ótimo tempo nos últimos três ou quatro anos”.

Grande parte dessa temporada final foi dedicada, em mais uma reinvenção, a ajudar o biógrafo autorizado Blake Bailey a realizar sua tarefa, cuja conclusão está anunciada para 2022. Diante disso, Roth brinca: “Farei o possível para continuar vivo até 2020, mas não me force. Agora que não escrevo mais, só quero jogar conversa fora. Tchau”.

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