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Número 801,

Economia

Análise / Paul Krugman

A Europa não saiu do mato

por Paul Krugman — publicado 28/05/2014 05h35
Enquanto a Alemanha cresce, os países periféricos ficam ainda mais para trás
CLEMENS BILAN / AFP
Krugman

O único país que cresce economicamente na Europa é a Alemanha. Na imagem, a chanceler Angela Merkel

Em 2013, houve muitas declarações de que a crise do euro terminou e que a economia da Europa estava em recuperação. Por trás dessas afirmações há algo muito real – uma enorme convergência nas taxas de juro e uma confiança crescente de que os riscos políticos do euro recuaram – e algo mais duvidoso: um modesto aumento no crescimento dos países devedores.

Por isso, os últimos números do PIB da Zona do Euro são decepcionantes. Não é só porque o crescimento em geral permanece lento. É também porque o crescimento está nos lugares errados. Precisamos ver convergência entre os países assolados pela austeridade na periferia da Zona do Euro e os países no núcleo. A Alemanha é a principal fonte de crescimento, com os países periféricos ficando ainda mais para trás.

Os “milagres bálticos” estão parecendo um pouco menos milagrosos? A economia da Estônia caiu este ano e a Letônia cresce no mesmo ritmo que os Estados Unidos. A história europeia continua apresentando políticas econômicas profundamente destrutivas, que infligiram enorme dano, mas não levaram à separação, porque a coesão política da Zona do Euro é mais forte do que pessoas como eu acreditavam. Coesão é uma coisa positiva, mas as políticas ainda não estão funcionando.

A crise de 2008, e suas consequências, foi um momento de teste para os economistas que fizeram previsões muito diferentes sobre os efeitos das várias reações políticas à crise. Inevitavelmente, algumas delas se mostrariam profundamente erradas. Como reagiram os que estavam errados? Os resultados não foram animadores.

Por exemplo, o economista Allan Meltzer continua emitindo advertências dramáticas sobre a futura inflação. Meltzer começou a tocar o tambor da inflação cinco anos atrás, prevendo que a expansão do balanço do Federal Reserve causaria uma disparada dos preços. Enquanto isso, alguns de nós apontaram tanto para a teoria da armadilha de liquidez como para a experiência do Japão, explicando que isso não iria acontecer.

Os testes em economia não são totalmente decisivos, e é aí que você deve dizer: “Está bem, eu estava errado e esta é a razão”. Impossível. E Meltzer não está sozinho. Você pode pensar em alguma figura proeminente naquele lado do debate que aceitaria modificar suas opiniões diante da evidência avassaladora?

Estavam eles apenas fingindo fazer alguma coisa parecida com ciência, quando seu verdadeiro interesse sempre foi a política? Há simplesmente dinheiro demais e interesses escusos demais por trás de sua opinião?

Steven Levitt, em seu novo livro, Think Like a Freak (Pense como um Maluco), com Stephen Dubner, pensa que estava sendo inteligente ao dizer ao primeiro-ministro britânico, David Cameron, que ele deveria eliminar o Serviço Nacional de Saúde e deixar a magia do mercado lidar com isso. Estranhamente, Cameron não ficou impressionado.

Há várias coisas acontecendo aqui. Uma é um defeito específico de Levitt, ou da “Freakonomics”: a crença de que um sujeito inteligente pode “dançar” sobre qualquer assunto e que suas afirmações impensadas são tão boas quanto as dos especialistas. Vejo em diversas frontes sinais de uma tentativa de descartar o que aconteceu no mundo nos últimos sete anos e voltar à noção de que o mercado sempre tem razão. Ei, a solução sempre foi sobre alocar recursos escassos (não importa os desempregados e as taxas de juro). E por que alguém imaginaria que os preços de mercado estão errados, sem falar na bolha?

Por baixo disso tudo há um problema de metodologia. Como você deveria usar o modelo perfeitamente competitivo, tão amado pelos economistas? Ele é apenas um modelo, é claro, e sabemos que suas premissas subjacentes não são verdadeiras. Certamente, não deve agarrar-se ao modelo idealizado do livre-mercado, quando ele faz péssimas previsões.

No caso da saúde pública, todas as suposições por trás da excelência do livre-mercado são grosseiramente violadas. Talvez, talvez, ainda se pudesse justificar tratar a saúde como um mercado normal se os livres-mercados de saúde pública parecessem funcionar bem na prática. Mas não, nos EUA, nosso original sistema privatizado é caro e os indicadores da qualidade não mostram qualquer superioridade americana. A evidência sugere fortemente que a proposição de que a saúde é uma área em que os mercados privados funcionam mal é derivada da experiência.

Se alguém preferir rejeitar a evidência e insistir que os mercados devem funcionar tão bem para cirurgias quanto para sapatos, deve se perguntar se existe algo que faria as pessoas questionarem o fundamentalismo do livre-mercado. Se não, então você está apenas vendendo pura fé.

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