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Número 801,

Internacional

Ucrânia

A encruzilhada da Ucrânia

por Gianni Carta publicado 24/05/2014 09h07, última modificação 25/05/2014 09h02
O país dividido prepara-se para eleger o futuro presidente, enquanto 40 mil soldados russos estacionam na fronteira. Por Gianni Carta, enviado especial a Kiev
Mykola Lazarenko / AFP

Do enviado especial a Kiev

Não fossem os outdoors dos candidatos, não se percebe o clima de eleição presidencial na imponente Kiev. Campanhas e comícios parecem não ter eco, de todo modo são raros. De qualquer modo, a vasta maioria porta-se como se estivesse resignada com o provável resultado: o bilionário Petro Poroshenko, 48 anos, magnata das confeitarias mais conhecido como “Rei do Chocolate”, com 50% dos votos, segundo as últimas pesquisas, deverá vencer no primeiro turno no domingo 25. Com o apoio de 10% dos eleitores, a ex-premier Yulia Timoshenko, 53 anos, não tem como derrotar o rival, também ele pró-europeu, caso houver um segundo turno, em 8 de junho.

Mais populares que candidatos são os cidadãos orantes pelos mais de cem mortos na Revolução da Praça Maidan. Santuários, fotos de falecidos, barricadas e barracas ainda pontuam a praça. Os protestos tiveram início em novembro de 2013, quando o corrupto presidente pró-russo Viktor Yanukovich não assinou um acordo de livre-comércio com a União Europeia enquanto flertava com Putin. Em fevereiro, Yanukovich fugiu para a Rússia. Milícias do governo lutaram contra os rebeldes liderados por Vitali Klitschko, campeão peso pesado pelo Conselho Mundial de Boxe. Klitschko, da legenda Aliança Democrática Ucraniana pela Reforma, abriu mão de sua candidatura presidencial para favorecer Poroshenko. Isso após um encontro em Viena entre ele, Poroshenko e Dmytro Firtash, o magnata do gás recentemente preso em Viena pelo FBI. Firtash é um grande lobista russo. “Há muitas especulações sobre esse encontro e tantos outros nesse país onde oligarcas são políticos ou fazem política”, diz o cientista político e jornalista Oleg Varfolomeyev. Emenda, sorriso nos lábios: “Mas o fato é que Klitschko deveria ter continuado a boxear”. De fato, Klitschko chegou a ser vaiado. E paramilitares da legenda de extrema-direita Pravy Sektor (Setor de Direita), e anti-Yanukovich, foram vistos ao seu lado na Praça Maidan.

Elena Bondar, cujo apartamento fica nas cercanias da praça, abrigou seis jovens. Cozinhava e lavava a roupa deles. Um rapaz de 22 anos foi seriamente ferido no quadril e ela teve de levá-lo a um hospital clandestino. Agora o jovem encontra-se em um hospital na Alemanha. No meio-tempo, Elena arrancava paralelepípedos da praça a marteladas e os entregava aos arremessadores. “Como eu podia ajudar esses jovens que têm a idade de minha filha?” Logo, acrescenta: “Mas tive muito medo”.  Enquanto conversamos em um café vejo homens e mulheres vestindo uniformes de guerra, os veteranos da Revolução. Entram e saem de barracas. Observo também mendigos. Outros vão protestar diante da Rada Suprema (Parlamento).

Zoryana, uma mulher uniformizada cercada de outros veteranos de Maidan, diz: “A Revolução terminou, mas continuamos presentes”. Quais as atuais reivindicações?  “Anistia para aqueles presos ilegalmente no mando de Yanukovich e as contas públicas postadas online.” Zoryana tira os óculos escuros quando vai ser fotografada. Ela lutou em Maidan, mas é médica e passou mais tempo a cuidar de pacientes.

Na Rada Suprema, Alexandra Kuzhel, deputada pela agremiação de Timoshenko, Batkivshchyna (Pátria), é no mínimo articulada. “Esse não é um pleito justo”, avalia Kuzhel. O motivo? “Poroshenko, para começar, é dono do Kanal 5, simplesmente a rede de tevê mais popular do país.” A deputada indaga: “O senhor sabia que 10% dos mais ricos, os oligarcas, possuem 90% de todas as propriedades deste país?” Mais: os ricos não pagam impostos e têm contas em paraísos fiscais. Poroshenko se diz pragmático, mas ele já foi ministro de um pró-europeu, Viktor Yushchenko, e de um pró-russo, Yanukovich. “Sabe o que ele fez quando era ministro da Economia e foi com Yushenko ao Japão?” Não. “Foi vender seus caminhões. Sim, porque ele não vende somente chocolate.” Aliás, agora ele seria pró-europeu porque a Rússia bloqueou a importação de seus chocolates. Kuzhel diz que, ao contrário de Poroshenko, Timoshenko quer “romper o sistema, acabar com as desigualdades sociais”. No entanto, ideologia é algo difícil de explicar em um país de 23 anos. O mais sensato é dizer que os políticos mudam de postura de acordo com as circunstâncias. Que o diga Timoshenko, a heroína da Revolução Laranja, precipitada pela fraude eleitoral de Yanukovich, em 2004. Durante os protestos de Maidan foi solta após três anos atrás das grades por aceitar um controverso contrato de gás com a Rússia. Agora ela diz buscar justiça social...

Em um café próximo ao Parlamento, o economista Andriy Novak afirma que, se a economia não estivesse tão ruim, “não teríamos tido a Revolução em Maidan”. Yanukovich “tirou o senho do povo de um futuro melhor”. O ex-presidente criou um sistema segundo o qual todos os contratos tinham de passar pela sua família. Segundo Novak, “o mercado russo é amplo, mas não é exigente e, portanto, não estimula o desenvolvimento de nossas indústrias”. Donde “o mercado europeu, mesmo em crise, é mais promissor para a Ucrânia”. O nível de desemprego oficial é de 3%, mas na realidade beira 30%. O que explica um êxodo de 6,5 milhões de ucranianos que vivem no exterior, 4 milhões na Europa.  O PIB do país, segundo Novak, sofrerá uma queda de 6,5% neste ano.

O melhor para trazer estabilidade, segundo Novak, é a vitória no primeiro turno de Poroshenko. “Se legitimado em todo o país, inclusive no leste e no sul, ele traria novas esperanças”, sustenta o acadêmico. “As pessoas saberiam com quem tratar, ele é bom empresário e, portanto, entende de economia.” No entanto, não falta um mas: “Será que seu objetivo é ser mais rico que Kinat Akhmetov,  dono da maior fortuna da Ucrânia?” Outra dúvida: “Ele é sincero quando diz que não quer aumentar os poderes presidenciais?” Desde a Revolução Laranja de 2004, os atributos presidenciais foram reduzidos. O presidente está longe de ter um papel simbólico, na qualidade de responsável pela política externa e pela segurança. Mas o Parlamento tem maiores poderes. Por causa das divisões do país, o cientista político e historiador alemão Andreas Umland, da Academia Kiev-Mohyla (leia entrevista), sustenta que o ideal seria o Parlamento eleger o presidente de forma indireta. “Isso daria legitimidade ao chefe do Estado em um país tão dividido.”

A Ucrânia está mergulhada em diversas contendas. A eleição presidencial. Um pleito municipal também domingo. Mesas-redondas infrutíferas para tentar solucionar o conflito entre ucranianos, em sua maior parte pró-europeus em Kiev e numerosas regiões, em bolsões de separatistas russófilos na parte oriental e sul do país. O exército ucraniano tem se mostrado incapaz de colocar ordem em Donbass, a região industrial ao leste, e no sul. No domingo 11, Donetsk e Luhansk tornaram-se repúblicas independentes em referendos. Para lidar com os “terroristas”, alcunha dada aos separatistas russófilos por Kiev, o governo apoiou a formação do Batalhão Donbass. Assim, esses ex-militares e voluntários, e certamente homens de passado nebuloso, enfrentam gangues de separatistas armadas com Kalachnikovs em regiões separatistas.

Por sua vez, os russófilos uniformizados receberiam suporte financeiro, armas e até a participação de veteranos de guerra sem insígnia para guiá-los nos combates. Enquanto isso, a ameaça da invasão é descartada pela maioria dos entrevistados, embora 40 mil soldados russos estejam de prontidão ao longo da fronteira. A tensão é exacerbada por uma “desonesta” artilharia midiática oriunda da Rússia, diz Varfolomeyev. Kiev é apoiada pelo Ocidente, três dos ministros do governo provisório são da legenda de extrema-direita Svoboda, Liberdade, e, portanto, o governo é “fascista”, segundo Putin. O qual, de todo modo, atende a reivindicações da maioria dos cidadãos de Donetsk e Luhansk. No entanto, não reconhece o governo provisório de Kiev, formado logo após a fuga de Yanukovich.  Aceitará a vitória de Poroshenko?

A véspera do pleito de domingo fecha com uma notícia preocupante: na Ucrânia Oriental combates contra forças pró- Russia mataram 14 soldados ucranianos e feriram 20. Nem por isso, aparentemente, muda o que está em jogo. A verificar.