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Número 801,

Internacional

Entrevista - Andreas Umland

“A Ucrânia não é o caos pintado por jornalistas”

por Gianni Carta publicado 24/05/2014 09h12, última modificação 25/05/2014 09h03
Cientista político e historiador alemão da Academia Kiev-Mohyla diz que, com o enfraquecimento das relações com a UE, Putin tentará forjar elos com o Brasil
Ucrânia

Militantes armados pró-Rússia montam barricada próxima a um posto ocupado por soldados do exército ucraniano, na região de Donetsk, em 23 de maio

Do enviado especial a Kiev


Para o cientista político e historiador alemão da Academia Kiev-Mohyla, na capital ucraniana, Putin tentará forjar elos com o Brasil em consequência do estremecimento de suas relações com a União Europeia.

CartaCapital: Como reagirá Vladimir Putin com a provável vitória no pleito presidencial de Petro Poroshenko, o qual pretende assinar o acordo comercial com a UE, rejeitado sob pressão de Moscou pelo deposto ex-presidente Viktor Yanukovich?

Andreas Umland: Tudo vai depender do comparecimento às urnas. Se houver razoável número de eleitores ao leste e sul do país, onde prevalecem regiões russófilas, o escrutínio terá maior legitimidade. Neste caso, a Rússia não poderá fazer muita oposição ao pleito.

CC: Os sólidos elos entre Poroshenko e o empresário bilionário Dmytro Firtash, recentemente preso em Viena pelo FBI, não maculam sua imagem?

AU: Claro. Mas aqui os oligarcas são políticos ou influenciam os políticos. Portanto, é positivo o fato de a mídia agora reportar sobre as manobras de oligarcas. Os jornalistas passaram a investigar mais os abusos. A sociedade civil está mais vibrante. Se não houvesse o espectro da Rússia a rondar a Ucrânia, eu estaria bastante otimista sobre o futuro deste país.

CC: No entanto, os oligarcas são os donos da mídia.

AU: Há jornalistas independentes. Outros expõem suas opiniões em diversas plataformas da mídia. E começam a surgir correspondentes internacionais na Ucrânia, uma novidade. Digamos que numerosos desses recém-chegados não compreendem bem a situação e produzem reportagens e análises pouco fiéis à realidade quando comparadas àquela de outros países. Mas agora fala-se da Ucrânia.

CC: O que reportam sem investigar o suficiente esses jornalistas?

AU: Há três ministros da legenda de extrema-direita Svoboda (Liberdade) no governo provisório.  Portanto, dizem correspondentes e em particular a mídia russa, o atual governo é fascista. Até há pouco tempo, a Itália tinha um partido de origem neofascista no poder, a Aliança Nacional, e tem até hoje outro separatista, a Liga Norte. Na Polônia e na Eslováquia há personalidades de extrema-direita em altos postos do governo. A Frente Nacional na França angariou suficientes votos para conquistar várias cidades nas recentes eleições municipais. A Ucrânia não é tão diferente desses países. Está longe de ser o caos pintado por correspondentes.

CC: O que o senhor acha do federalismo, proposto por alguns ucranianos e por Vladimir Putin?

AU: O federalismo seria um sistema ideal para a Ucrânia. Aqui há várias comunidades e diferentes regiões. Temo, porém, que não teríamos um federalismo como os da Alemanha e  Suíça. Seria uma nova Iugoslávia. E a Rússia tentaria manipular as regiões russófilas. Ao mesmo tempo, os separatistas pró-russos pedem maior descentralização. É um absurdo, porque o governo propõe justamente isso, ou seja, maior autonomia orçamentária para as regiões.

CC: O senhor crê que Putin invadirá o leste e o sul da Ucrânia?

AU: Não, porque ele não saberia até onde ir e quando parar. O modelo da ex-Tchecoslováquia, com clara linha divisória, não é aplicável no caso da Ucrânia. Na Crimeia, o presidente russo tinha todas as condições para agir rápido, quando a anexou em março. A península possuía um status semifederal. Cerca de 60% dos habitantes são de etnia russa. Sebastopol, onde está a Marinha russa, já era administrada pela Rússia, que lá mantinha tropas. De qualquer modo, após ter anexado a Ossétia do Sul e a Abecázia, na Geórgia, mais a Transnístria, na Moldávia, e agora a Crimeia, planos de elos com a Europa naufragaram. É muito provável que  agora Putin tente forjar boas relações com o Brasil, a África do Sul e a Índia.

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