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Número 800,

Internacional

Entrevista

"Putin quer dividir a Ucrânia"

por Gianni Carta publicado 18/05/2014 06h38, última modificação 19/05/2014 09h40
Para analista Olexia Basarab, haverá uma guerra na Europa e os EUA não poderão intervir
Dimitar Dilkoff / AFP
Ucrânia

Em Mariupol, no sul da Ucrânia, idosa chora durante funeral de vítimas de confronto entre tropas ucranianas e ativistas pró-Rússia

Para Olexia Basarab, diretora de pesquisas do Strategic and Security Studies Group, em Kiev, o Ocidente está mais preocupado com seus interesses econômicos.

CartaCapital: Putin não parece ter uma estratégia clara para a Ucrânia. Nem Obama e a União Europeia.

Olexia Basarab: Infelizmente, temo que Putin tenha uma estratégia clara. E muito sofisticada. A meta de recolocar Kiev sob o controle de Moscou, ou ao menos de dividir a Ucrânia, tem sido desenvolvida desde o fim da União Soviética. No início dos anos 1990, Moscou financiava movimentos separatistas, especialmente na Crimeia e na Transcarpátia. Ele focava, porém, sua atenção na luta na Chechênia, e assim a Ucrânia vivia em paz. Pensávamos que a Rússia agiria apenas em guerras de informação e econômicas, não em conflitos híbridos, como na Ucrânia. Os EUA e a UE sofrem pressões de empresas preocupadas com suas receitas. Em breve, haverá uma grande guerra na Europa e a UE e os EUA não terão como agir militarmente. Nossos vizinhos na fronteira ocidental também não estão felizes. Calculam quantos milhares de refugiados vão acolher. A Ucrânia tem 46 milhões de habitantes... Até agora.

CC: É correto falar em guerra civil entre Kiev e a Ucrânia Oriental?

OB: Ainda não, embora haja muita energia financeira e militar para realizar uma balcanização da Ucrânia. Uma guerra civil requer significativos grupos de cidadãos do mesmo país a lutar entre si. Temos agora uma população cansada que quer desenvolvimento econômico e paz. Não estavam contentes com o governo anterior de Viktor Yanukovych. Claro, o país é grande e, portanto, as regiões são diferentes. Certos grupos expressam, porém, problemas inexistentes. Sou habitante da Ucrânia Central e fico pasma quando falam sobre a dicotomia entre Oeste e Leste. E a Ucrânia Central, a ocupar uma área maior do que a do Oeste e a do Leste, ela não entra na equação? A região central é a junção natural de todo o país.

CC: Vários observadores dizem que não podemos falar tampouco em uma nova Guerra Fria, visto que Putin é, bem ou mal, favorável a um mercado livre.

OB: Ser pró-mercado significa apoiar a concorrência de mercado livre. E Putin deveria ao menos tentar lutar contra a corrupção. Diria mais: a corrupção é a essência do “capitalismo” russo. A política econômica de Putin assemelha-se mais ao corporativismo de Mussolini. Também é ficção o espectro de uma Guerra Fria. As elites russas têm famílias e investimentos no Ocidente. O Ocidente tem interesses econômicos na Rússia, donde a necessidade de não romper com Putin. O cerne da questão é: quem vai recuar primeiro?

CC: O patriotismo russo substituiu a ideologia?

OB: Temo que um neopatriotismo da cultura pop tenha substituído a elaborada ideologia. Na época da União Soviética, tivemos uma ideologia comunista e patriótica. Agora há ideologias que vão da extrema-esquerda à extrema-direita. O patriotismo virou uma espécie de hambúrguer para delivery. Tem aspecto apetitoso, aromas fortes, mas é melhor você não saber os ingredientes dentro dele. Numerosos habitantes aceitam sem reflexão esse pop-patriotismo xenófobo. Melhor chamá-lo de chauvinismo. É assustador como uma sociedade muda em um período tão curto. A Rússia de 15 anos atrás era outro país. Agora os russos julgam tudo que difere das “normas”: a cor da pele, a forma dos olhos, o sotaque, a orientação sexual, as opiniões políticas. Gostaria que tivéssemos um vizinho amigável, próspero e pacífico. Não é o caso.