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Número 800,

Internacional

Ucrânia

Um diálogo de surdos na Ucrânia

por Gianni Carta publicado 18/05/2014 06h38, última modificação 19/05/2014 09h38
As frequentes reuniões de líderes não parecem suficientes para desfazer os impasses e apaziguar os ânimos
Alexander Khudoteply / AFP
República Popular de Donetsk

Em Donetsk, no leste da Ucrânia, pessoas levantam bandeiras com o emblema da chamada "República Popular de Donetsk"

Seis meses de conflito. Continua o diálogo de surdos, ou as mesas-redondas de líderes carentes de planos para solucionar o conflito entre ucranianos em Kiev e numerosas regiões com bolsões de separatistas russófilos na parte oriental do país. No domingo 11, Donetsk e Luhansk tornaram-se repúblicas independentes. Menos de duas horas após o resultado, Donetsk pediu para integrar a Rússia.

Na terça-feira 13, entrou em ação o ministro alemão do Exterior, Frank-Walter Steinmeier. Foi a Kiev encontrar o premier provisório Arseniy Yatsenuk. Steinmeier falou sobre a importância das mesas-redondas, do desarme de separatistas pró-russos e da eleição presidencial nos dias 25 de maio e 8 de junho. Um dia após a visita do ministro alemão, uma reunião em Kiev não incluiu líderes separatistas. Marcaram presença, porém, embaixadores dos Estados Unidos e da União Europeia, além da renascida das cinzas Yulia Tymoshenko, popularizada por um penteado com longas tranças loiras e uma coroa capilar durante a Revolução Laranja em 2004 (contra a fraude eleitoral cometida pelo presidente deposto em fevereiro deste ano, Viktor Yanukovich).

Mesmo após passar anos atrás das grades por aceitar um controverso contrato de gás com a Rússia, a ex-premier Tymoshenko é a segunda colocada nas pesquisas eleitorais. O primeiro é Piotr Poroshenko, o magnata das confeitarias mais conhecido como “Rei do Chocolate”, apoiado por dois homens atualmente atrás das grades.

Para Steinmeier, as eleições trarão estabilidade ao país. Será? O governo alemão tomou a dianteira no balé diplomático em grande parte por ter fortes interesses econômicos na Rússia, afirma o professor de ciências políticas Andreas Umland, da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla.

A Alemanha importa 40% do gás natural usado no país. Novas sanções contra Moscou seriam danosas para a UE. O intercâmbio comercial entre a União Europeia e a Rússia é de 460 bilhões de euros. Por sua vez, Paris assinou contratos de defesa com Moscou. Já o Reino Unido prefere não se meter na briga: oligarcas russos investem rios de dinheiro no mercado financeiro da City. Por essas e outras, continua o cientista político Umland, “a Rússia conseguiu anexar a Crimeia em março”. Visto que os EUA já não são considerados pelos europeus o guia mundial, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, tem buscado o diálogo com Vladimir Putin.

No seu canto, Putin faz um jogo ambíguo. Com 40 mil soldados ao longo da fronteira com a Ucrânia, aprovou o “desejo do povo”, em Donetsk e Luhansk. Antes, havia defendido o adiamento dos referendos. Após a vitória dos separatistas, Putin recomendou o diálogo com Kiev. “A eleição presidencial é um passo na boa direção”, discursou. Estaria o presidente russo inquieto com as consequências de eventuais sanções econômicas? Quais serão seus próximos passos?

Segundo Olexia Basarab (entrevista nesta página), diretora de pesquisas do Strategic and Security Studies Group, um think tank em Kiev, “o mais provável é a tentativa de transformar as regiões de Donetsk e Luhansk em espécies de repúblicas independentes”. Em seguida, “Putin vai desestabilizar outras regiões com as mesmas táticas: o envio de milícias russas sem declarar uma guerra contra a Ucrânia”.

Umland e Olexia concordam: não se pode falar em guerra civil entre Kiev e a fatia oriental do país. “As dimensões militares e paramilitares desse conflito têm a ver com a interferência da Rússia”, afirma Umland. “Moscou deu apoio material aos separatistas, como armas e suporte financeiro.” Em miúdos, o acadêmico sustenta que sem os mercenários e milícias russas com uniformes sem insígnia não haveria conflito algum. Essas forças paramilitares voltaram a agir em Odessa e Mariupol, entre outros. Na terça-feira 13, seis militares ucranianos perderam a vida em uma emboscada realizada por milicianos em Kramatorsk. Putin não anexará, porém, regiões separatistas como fez no caso da Crimeia. A península é de grande importância geopolítica para a Rússia. Como sustenta Umland, o porcentual de russos étnicos na Crimeia é muito superior ao de Donetsk, ou ao de outras regiões da Ucrânia Oriental.

Para o jornalista Oleg Varfolomeyev, Putin não anexará Donetsk e Luhansk, pois seria um peso para o orçamento russo. “Dezenas de minas de carvão nas duas regiões, subsidiadas por Kiev, estão falidas.” E, se Putin apoia “gângsteres”, o governo de Kiev age de forma brutal. Para o governo, os separatistas são “terroristas”. Os separatistas se referem à capital como “junta de Kiev” e chamam os conterrâneos ocidentais de “fascistas”. O motivo? O mais recente: três ministros do atual governo provisório em Kiev são oriundos do partido de extrema-direita Svoboda (Liberdade).

Grupelhos extremistas de hooligans como o Pravy Sektor (Setor de Direita) deram o ar da graça nos protestos iniciados em novembro de 2013 na Praça Maidan contra o governo corrupto de Yanukovich. O então presidente se recusou a assinar um acordo de livre-comércio com a Europa, enquanto flertava com a Rússia. Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, disse que Kiev não poderia assinar acordos simultâneos com a UE e com os russos. Segundo Varfolomeyev, “pode crescer o apoio ao movimento pró-Putin”.