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Número 799,

Cultura

Memória

Um samba triste

por Ana Ferraz publicado 09/05/2014 12h03, última modificação 09/05/2014 12h03
Uma das grandes vozes da MPB, Jair Rodrigues morreu aos 75 anos
Olga Vlahou
Jair Rodrigues

Alegria sem fim. Elétrico, carismático e brincalhão, esbanjou talento e vivacidade

Em 1964, um negro elegante, bem-apanhado, sorridente e carismático, ganhou imensa popularidade com uma música meio cantada, meio falada e muito gesticulada, Deixa Isso Prá Lá (Alberto Paz e Edson Menezes), hoje tida como precursora do rap e seu intérprete homenageado como mestre. Dois anos depois, quem conhecia o Jair Rodrigues espevitado e brincalhão a dividir o palco com Elis Regina no programa O Fino da Bossa da TV Record se surpreendeu ao vê-lo imprimir forte carga dramática a uma canção que comparava os pobres explorados ao gado, que se “marca, tange, fere, engorda e mata”.

Com Disparada, composta por Geraldo Vandré e Théo de Barros nos tempos sombrios da ditadura, Jair Rodrigues se consagrou de forma definitiva no II Festival de Música Popular Brasileira. O jovem de família pobre de Igarapava, interior de São Paulo, que havia aportado na metrópole em 1954 e começado a carreira de crooner, dividiu o prêmio do festival com um iniciante Chico Buarque, cuja canção A Banda foi defendida por Nara Leão.

Jair Rodrigues, de 75 anos, morreu na quinta-feira 8 de infarto. Deixa a mulher, Clodine, e os filhos Luciana Mello e Jair Oliveira. Estava em casa, em Cotia, e acabara de lançar o CD duplo Samba Mesmo. Para quem privou de seu convívio, a imagem pública do artista refletia fielmente sua personalidade. “Ele tinha uma alegria sem fim, um grande amor pela música e pelas pessoas. Começou do nada e sempre foi humilde”, diz o maestro e arranjador Luiz Loy, cujo quinteto acompanhou o cantor entre 1965 e 1968 no Fino da Bossa.

O “cachorrão”, como o cantor chamava os amigos e foi por eles apelidado, adorava aprontar. Num domingo, convidou o Quinteto para uma macarronada “que só dona Conceição sabe fazer”. Lá se foram à casa que o cantor dividia com a mãe. Só faltou o baterista, Zinho. Na segunda, durante a gravação ao vivo do Fino da Bossa, assim que ouviu a introdução Jair mandou parar tudo. Tirou uma marmita de um pacote e disse: “Esses cachorrões foram, mas o Zinho não. Vai ter de comer o macarrão na frente de todo mundo”.

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