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Número 799,

Cultura

Cinema

Os homens partidos de “Praia do Futuro”

por Orlando Margarido — publicado 13/05/2014 05h24, última modificação 13/05/2014 05h50
Com atuações corajosas, o filme de Karim Ainouz é uma rara evocação de amor. Por Orlando Margarido
Divulgação
Praia do futuro

Schick, Moura e Barbosa, rara evocação do amor

Praia do Futuro
Karim Aïnouz

Todo movimento de partida é precedido por uma perda em Praia do Futuro, o novo filme de Karim Aïnouz que estreia na quinta 15. A primeira e determinante ao enredo vitima o amigo de Conrad (Clemens Schick), turista alemão em férias no Ceará resgatado pelo salva-vidas Donato (Wagner Moura). Da desolação pela morte do outro, surge o ímpeto sexual e o relacionamento que os levará a viver em Berlim. Mas a Donato pesa a distância da terra solar, do mar, da família, danos que não consegue reverter sem abdicar do companheiro, em outro possível abandono. Deste, por fim, vem lhe cobrar o caçula Ayrton (Jesuíta Barbosa), um dia admirador e agora revoltado pela súbita decisão do irmão.

Neste encontro se dará uma das mais belas e única cena de confronto, porque física, acima do tom de sutileza e melancolia que comanda a trajetória dos protagonistas. No embate entre irmãos há muito a ser dito com rispidez e mais a ser subentendido, num esforço de contenção. Aïnouz trabalha para dimensionar fatos naturais às relações como grandes etapas de transformação de vida, ele um realizador marcado por distintas ascendências e migrações pessoais e familiares. Há três capítulos, e no terceiro, os homens estão mudados, inclusive no viés da personalidade. Essa passagem inclui o sexo, e no início é Conrad quem domina, para mais tarde ser dominado. Os atores se desnudam com coragem e se vestem da espontaneidade necessária para tornar o filme uma rara evocação do amor.

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