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Número 799,

Internacional

África do Sul

A força do mito

por Gianni Carta publicado 10/05/2014 00h14, última modificação 10/05/2014 00h22
Mesmo morto, Mandela continua a ser o maior cabo eleitoral do CNA, partido que traiu seus princípios. Por Gianni Carta
Gianluigi Guercia/AFP
África do Sul

Mandela dá lastro ao partido governista

Falecido há menos de seis meses, Nelson Mandela reviveu nos cartazes e outdoors de seu Congresso Nacional Africano (CNA) para a eleição da quarta-feira 7. Com 80% dos votos contados no dia seguinte, o CNA estava na dianteira com 63%, contra 22% da Aliança Democrática (AD), legenda de centro-direita. Por sua vez, a formação de extrema-esquerda Combatentes pela Liberdade Econômica (CLE) ocupava a terceira posição com 4,3%. Segundo pesquisas de intenção de voto, o CNA deveria obter 65% do total, fatia pouco abaixo dos 66 pontos obtidos pela agremiação governista em 2009. Salvo contratempos, o presidente Jacob Zuma, de 72 anos, continuará no cargo por um segundo mandato de cinco anos.

A maioria dos 72% dos eleitores registrados foi leal ao legado de seu herói e a seu partido. Não a Zuma. Os elos com Mandela permanecem sólidos, pois ele é associado à libertação dos negros, à emergência de uma democracia na qual milhões se beneficiam de um sistema de bem-estar e acesso a eletricidade, água, educação e a um mais eficaz sistema de saúde. Seus eleitores são, em sua maior parte, negros de meia-idade e os mais idosos, não a geração “nascida livre”, que representa 2,5% dos registrados, vota pela primeira vez e não tem recordações da era do apartheid. Apenas um terço desses jovens nascidos após 1994 se registrou para votar. De qualquer modo, foi elevado o nível de comparecimento nos 22 mil colégios eleitorais espalhados pelo país.

Eleito presidente mesmo acusado em vários casos de corrupção já em 2009, Zuma não pareceu se incomodar em ficar no segundo plano durante mais uma campanha. Até pelo fato de o mais recente escândalo, o Nkandlagate, ter maculado inexoravelmente a sua imagem. O atual presidente usou 23 milhões de dólares de dinheiro público em reformas faraônicas em sua casa campestre erguida em um terreno equivalente a seis campos de futebol. Além da piscina, mandou construir, entre outros, um anfiteatro. A mansão, situada a 24 quilômetros ao sul de Nkandla, é uma aberração por um motivo complementar: a cidade no centro-oeste é uma das mais pobres da África do Sul e cerca de 40% da população local encontra-se desempregada em um país com nível oficial de desemprego de 24%. Não surpreende o fato de Zuma ser comparado a Mobutu Sese Seko, ex-presidente do Zaire (atual República Democrática do Congo).

A vitória do CNA explica-se também pela divisão da oposição. Liderada por Helen Zille, a Aliança Democrática beirava os 27% do sufrágio na quinta 8, ou 10 pontos porcentuais acima do escrutínio de cinco anos atrás. Apesar da melhora, a legenda conservadora ainda é lembrada por ter defendido brancos privilegiados durante o apartheid. Por sua vez, Julius Melema, líder da agremiação Combatentes pela Liberdade Econômica, teria, segundo seus admiradores, o carisma de Hugo Chávez. Sempre a envergar uma boina vermelha, Melema se diz comandante em chefe do CLE. Mais: simpatiza com Robert Mugabe, presidente do Zimbábue. Como Mugabe, ele propõe a nacionalização de fazendas, minas de carvão e bancos. Sem compensações. O objetivo de Melema é angariar o apoio de jovens revoltados. Somente neste ano registraram-se 3 mil protestos. Isso sem contar as reivindicações salariais dos mineiros. Dois anos atrás, 38 deles perderam a vida em confrontos com a polícia. Para se ter uma ideia, metade dos 52 milhões de cidadãos sul-africanos vive com 2 dólares por dia. O quadro político demonstra liderança sem uma política social e econômica igualitária.

Segundo Chris Vandome, pesquisador da Chatham House, think tank britânico de relações internacionais, o atual apartheid não é mais racial, como antes de 1994, mas econômico e social. Sucessivos governos sul-africanos deram ênfase ao crescimento. Graças a investimentos oriundos do exterior e ao apoio do Fundo Monetário Internacional, a economia deslanchou. Poucos se beneficiaram, porém. Da expansão do PIB brotou uma minoria rica, em sua maior parte branca. “A maioria sofre com altos níveis de desemprego, devido a uma carência de serviços públicos como instrução, higiene e saúde”, diz Vandome. Por essas e outras, o Congresso Nacional Africano, há duas décadas no poder, perdeu credibilidade. Trata-se de um partido em declínio.

Apesar da corrupção de alguns de seus líderes, do alto nível de desemprego e da falta de crescimento, a legenda continua a ser a única esperança para os menos favorecidos. A aliança, por exemplo, entre o CNA, o Partido Comunista e sindicatos é a prova de que uma política social e econômica, ao menos no nível partidário e sindical, é o norte. Zuma promete criar um sistema nacional de Bem-Estar Social. Terá, no entanto, de enfrentar o setor privado, que desaprova o projeto do presidente.  Outro fator importante a levar numerosos eleitores a votar no partido: presidentes, com raras exceções, são descartáveis. Um cotado novo líder do CNA é Cyril Ramaphosa, ambicioso empresário e ex-ativista anti-apartheid. Seria Ramaphosa capaz de romper as nebulosas relações entre Estado, partido e negócios? Melhor não esperar, porém, um novo Mandela.

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