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Número 798,

Economia

Análise / Delfim Netto

Suprema mistificação

por Delfim Netto publicado 07/05/2014 04h48
A crise poupou exatamente a riqueza dos que, com “incentivos perversos”, a produziram

A existência de um hígido e eficiente sistema financeiro, capaz de suprir de crédito o setor real da economia e de reduzir os riscos e o custo de transações, é fator decisivo na aceleração do desenvolvimento econômico. O que não pode haver dúvida é que a ação desimpedida dos agentes financeiros – estimulada pela sua sempre fértil imaginação e ainda apoiada em ilusória segurança matemática – é uma daquelas coisas boas que quando em excesso, transformam-se em catástrofe.

A crise de 2007-2009 foi construída cuidadosa e seguramente nas duas últimas décadas do século XX e na primeira do novo século graças ao fortalecimento de relações incestuosas do sistema financeiro com governos e seus bancos centrais nos países desenvolvidos. Com o conhecimento que se tem hoje dos fatos é cada vez mais evidente que o colapso do Lehman Brothers não foi a causa da crise. Foi apenas o evento mais dramático de uma série que terminou com a ilusão da “grande moderação”, durante a qual um arrogante e suposto conhecimento acreditava ter eliminado as crises ínsitas do capitalismo e abusava do conhecimento mais modesto que sugeria a possibilidade de que, com incentivos equivocados, estávamos caminhando fatalmente para o desastre.

Qualquer pessoa que leia o famoso Relatório Pécora que analisou, por ordem do Congresso dos EUA, a crise dos anos 1930 do século passado, ficará surpreso como se tornou possível a repetição dos mesmos fatos e comportamentos que levaram à Grande Depressão. A única diferença é que – nos anos 1980 e seguintes – “novos procedimentos” pareciam justificados por uma suprema mistificação matemática que seria capaz de calcular os “riscos” das transações financeiras. Levada ao paroxismo com a conivência das autoridades, ela produziu o monstro contra o qual continuamos lutando.

Nada é mais representativo dessa situação do que a reação mercurial de Larry Summers às observações do excelente Raghuram Rajan em 2005, sobre os “incentivos perversos” instituídos no sistema financeiro. Chamou-o de luddista, alguém para o qual qualquer progresso tecnológico é socialmente nocivo. Aliás, Summers, secretário do Tesouro dos EUA em 1999-2000 (nove anos antes da crise), quando Brooksley Born, então chairwoman da The US Commodity Futures Trade Commission, propôs-lhe a “regulação” de alguns derivativos financeiros, respondeu: “Estou aqui com 13 banqueiros. Eles garantem que se você fizer isso vai criar a maior crise financeira desde a Segunda Guerra Mundial”. Hoje, conhecendo as patifarias que escondiam, devemos dar-lhes um voto de confiança. Eles sabiam o que estavam dizendo...

Por sinal, Summers nunca esteve sozinho. Allan Greenspan, presidente do Fed, sempre defendeu a completa desregulação dos mercados financeiros. Ele reconheceu, mais tarde, em plena crise, que “havia cometido o erro de presumir que o interesse das organizações financeiras em proteger os interesses dos proprietários e clientes faria delas próprias o melhor instrumento de controle das operações”.

Seu sucessor na direção do Fed, o competente Ben Bernanke, também fez o seu mea-culpa pelas falhas de comunicação ao se referir aos acontecimentos de 2007-2008: “Fui lento em reconhecer a crise. Ela parecia uma crise clássica disfarçada: tipos divergentes de produtos financeiros e instituições muito diferentes tornaram mais difícil, para um simples historiador como eu, identificá-la”.

O resultado da crise foi, paradoxalmente, um enorme descrédito sobre a atividade privada e o uso do sistema de preços para coordenar as atividades econômicas. Criou-se a convicção de que o Estado foi o salvador de última instância, mesmo quando a crise foi gestada no seu ventre. O fracasso em “salvar” o Lehman Brothers foi a faísca que encontrou o gás tóxico espalhado em todo o sistema financeiro e o fez explodir na forma da mais absoluta desconfiança entre os agentes da irmandade financeira. Com isso eliminou-se o crédito que é o oxigênio da atividade real. Esta colapsou! Desempregou 40 milhões de trabalhadores, destruiu o patrimônio de milhões de cidadãos honestos. A crise poupou exatamente a riqueza dos que, com “incentivos perversos”, a produziram!

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