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Número 798,

Sociedade

Análise / Wálter Maierovitch

O efeito banana e a tragédia de inocentes

por Wálter Maierovitch publicado 05/05/2014 05h23, última modificação 05/05/2014 09h30
Rol de desmandos recentes, entre eles o terrível caso dos haitianos, remetidos do Acre para São Paulo
Renan Truffi
Haiti

Brasil mostra-se despreparado para acolher dignamente os haitianos que ainda fogem dos efeitos provocados pela catástrofe natural de 2010

Como num jogo de espelhos a reproduzir infinitas imagens, o episódio racista da banana jogada no futebolista brasileiro Daniel Alves, durante a partida entre o Barcelona e o Villareal, multiplicou-se mundo afora. A reação do jogador ao comer a banana ganhou a força simbólica de luta contra a intolerância e o ódio de matriz racista. Ainda serviu para promover o respeito aos direitos do ser humano. A permanecer no campo do esporte, o mandachuva da NBA afastou da entidade e das quadras de basquete, por manifestação racista em pública conversa telefônica com a namorada, Donald Sterling, presidente-proprietário do Los Angeles Clippers.

Num balanço de fim de abril e no campo das desumanidades, vários fatos, negativos e positivos, merecem ser lembrados. A primeira viagem pastoral do papa Francisco foi à ilha siciliana de Lampedusa, principal porta europeia de ingresso de refugiados e de travessias marcadas por trágicos naufrágios. No porto de Lampedusa desembarcam desesperados em busca de alimento, assistência médica, emprego e um futuro para os seus filhos. No pior dos naufrágios morreram 110 pessoas e, na homilia da missa celebrada em Lampedusa, o papa, entre a indignação e a emoção, emitiu um juízo de valor: “Uma vergonha”.

Como os refugiados estão em busca de sobrevivência, arriscam-se a ser jogados ao mar pelos traficantes de pessoas, e isso sempre acontece quando detectada a aproximação de uma lancha-patrulha. Vale lembrar que o tráfico de pessoas, segundo frisou o ministro francês Laurent Fabius, gera, anualmente, lucro de 1 bilhão de euros às organizações criminosas. Ao desembarcarem em Lampedusa, os refugiados ignoram a xenofóbica e criminalizante lei italiana Bossi-Fini, aprovada no governo de Berlusconi em 2002 e, também, o fato de o governo francês, desde Sarkozi, bloquear fronteiras com a Itália para impedir migrações à França.

No âmbito da União Europeia (EU), reservou-se o próximo 20 de junho, data internacionalmente dedicada aos refugiados, para se avançar no tema sobre fluxos migratórios. Até lá, estará definida, pela eleição de maio, a nova composição do Europarlamento: em disputa, defensores da UE contra os desejosos da sua extinção. A cúpula executiva da UE sabe de uma fórmula eficaz para contrastar o fenômeno da imigração clandestina. Mas, para isso, seriam necessários investimentos gigantescos nos países de embarque e cuidados fiscalizatórios a evitar a corrupção dos governos contemplados. Em resumo, combate à miséria a fim de desestimular a busca de refúgio.

No Brasil, o governo Dilma, pelo Ministério da Justiça e Secretaria Nacional de Direitos Humanos, mostra-se despreparado para acolher dignamente cerca de 20 mil haitianos que fugiram dos efeitos provocados pela catástrofe natural de 2010. Na América Latina, o Brasil foi o primeiro a adotar a Convenção de Genebra de 1951, de amparo aos refugiados. Mas a nossa legislação (Lei nº 9.474/97) não tipificou como refúgio o deslocamento decorrente de catástrofes naturais. Assim, os haitianos não são legalmente considerados refugiados e penetram no Brasil pela fronteira do Acre.

O governo Dilma não enfrenta o drama dos haitianos com políticas e planos emergenciais de acolhimento. No Acre, o governo estadual, onde os haitianos ficam ociosos e restam amontoados em condições desumanas, jogou a toalha e enviou um grupo deles para São Paulo, sem pré-aviso e de forma irresponsável. Por seu turno, o governo estadual paulista, pela Secretaria de Justiça, reagiu com críticas e sem se preocupar em traçar um plano de emergência, ou seja, sensibilidade zero. Diante dessa tragédia a envolver inocentes haitianos, o governo Alckmin e do prefeito paulistano Fernando Haddad partiram para a tática do diversionismo e, para isso, aproveitam-se de um infeliz ataque, pela imprensa, do governador acriano Tião Viana: acusou de racismo as “elites paulistas” e afirmou, pela sua assessoria, a irreversibilidade da situação.

Quanto ao fato positivo, o destaque ficou por conta do presidente palestino já dado como negacionista. Abu Mazem reconheceu, publicamente, a Shoah, ou seja, o genocídio, resultante na eliminação de cerca de 6 milhões de hebreus. Para ele, tratou-se do crime mais odioso contra a humanidade consumado na era moderna. Esse reconhecimento do holocausto dos hebreus, infelizmente, não deverá contribuir para avançar o processo de paz: o processo foi suspenso por Israel depois da recente aliança entre o Fatah, liderado por Mazem, e o Hamas, que governa a Faixa de Gaza.

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