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Número 798,

Sociedade

Brasiliana

Cervejeiro de panela cheia

por Rodrigo Casarin — publicado 14/05/2014 05h11, última modificação 14/05/2014 05h55
Gilvane Vieira da Costa começou em 1981. No Brasil, há hoje 200 artesãos como ele. Por Rodrigo Casarin
Raoni Maddalena
Cerveja

A primeira prova tinha gosto de pão

Gilvane surpreendeu-se quando chegou, numa noite de terça-feira, na cervejaria-escola Sinnatrah, na zona oeste de São Paulo. Não esperava encontrar tantas pessoas – umas 30, talvez – partilhando de sua paixão. Cervejeiros caseiros dividiam suas crias de distintos estilos e propostas, algumas praticamente intragáveis, outras com defeitos sensíveis, uma quantidade razoável de boas e ótimas. Pouco importava, exibiam com orgulho o resultado de mais de um mês de trabalho e ouviam os pontos que podiam melhorar. O ano era 2012 e Gilvane presenciava algo que um dia poderia ter sido chamado de utopia. Estava realizado.

Se pintássemos esse quadro quando Gilvane Vieira da Costa começou a fabricar a bebida artesanalmente, ele não acreditaria que isso seria possível. Em 1981, viu em meio ao bolo de cartas uma propaganda postal convidando a fazer cerveja em casa. Como estava cansado de apenas trabalhar – ainda é metalúrgico –, resolveu tentar o novo hobby. Comprou os aparelhos e fez sua primeira cerveja com fermento de pão – a levedura cervejeira era rara e cara –, muito açúcar e pouco malte.

Cozinhava os grãos e extraía um chá – para coá-lo, utilizava pano –, que era fervido e a ele adicionado o lúpulo e o açúcar. Em seguida, resfriava o líquido e acrescentava o fermento. Depois, esperava cerca de duas semanas até que as leveduras transformassem os açúcares em álcool. O processo vem de séculos e é o mesmo até hoje, ainda que técnicas e ingredientes mudem com o tempo. As opções de cervejas eram mínimas, clara ou escura, mas que pareciam contemplar todo o universo possível, afinal, Gilvane nada conhecia além da loira gelada e da adocicada malzbier.

Ficou feliz quando abriu a primeira garrafa e viu que ao menos gás havia – já era uma conquista –, mas os resultados iniciais foram sofríveis: uma bebida praticamente branca, com sabor e aroma de pão. Maria José, sua esposa, apenas dava risada. Uma tia foi a única a dizer que a bebida estava “gostosinha”.

Gilvane persistiu no hobby e aos poucos foi conhecendo um maluco ou outro que também se arriscavam a fazer cerveja em casa. Contudo, a troca de informações era parca e muitos jamais revelavam os segredos de uma boa fermentada. Em meados da década de 1980, havia bastante gente tentando produzir sua própria bebida, contudo, com as cervejas sempre turvas, sem saber a quantidade de álcool e, o que é pior, frequentemente contaminadas e azedas, muitos desistiram. Mas não Gilvane.

Em 1997, foi transferido para Botucatu e levou consigo sua família – é pai de Benny e Alexandre –, mas não o hobby. Só voltou a fazer cerveja quando retornou a São Paulo para abrir sua própria metalúrgica, no começo dos anos 2000, e encontrou uma realidade completamente diferente: com a internet, o conhecimento e as informações estavam sendo muito mais difundidos, era fácil achar quem realmente queria ensinar as manhas da cerveja. Neste momento, aprendeu que elas iam muito além da clara e da escura, que existiam as ales e as lagers e que se dividiam em mais de 120 estilos. Redescobriu sua paixão e passou a aprimorá-la.

O Brasil vive um boom cervejeiro e o número de fabricantes caseiros se multiplica pelo País. São Paulo acompanha essa tendência. Hoje a cidade possui ao menos quatro lojas físicas destinadas a quem faz cerveja em casa e a ACervA Paulista, associação de cervejeiros artesanais do estado, passa dos 220 associados, conta com quase mil pessoas orbitando em seu entorno e cresce a uma média de 10% ao mês.

Isso fez com que Gilvane se reinventasse. Como perdeu força dentro da indústria têxtil, então área de atuação de sua metalúrgica, mudou o foco da empresa: passou a desenvolver equipamentos para quem faz cerveja em casa. Junto de Alexandre e Benny, abriu a My Beer e, com a ajuda de cinco funcionários, transforma na garagem de sua residência as panelas com fogareiro em um equipamento moderno e automatizado, que traz facilidades aos processos.

Não que Gilvane ligue para o trabalho que dá fabricar a bebida, mesmo 30 anos depois de se iniciar no hobby. “Levanto cedo, umas 6 horas da manhã já estou trabalhando. Gosto de fazer tudo sozinho, sentir o cheiro adocicado do malte. A vontade de fazer cerveja é até maior do que a de beber”, diz ele, que de 2002 para cá, já fez cerca de 200 lotes que resultaram em aproximadamente 10 mil litros de loiras, ruivas e morenas. O que fez com tudo isso? Dividiu com os amigos e colegas. “Servir a própria cerveja é um dos maiores prazeres que há.” Aceita uma?

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