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Número 798,

Internacional

União Europeia

As eleições e a disputa pelo Parlamento europeu

por Gianni Carta publicado 03/05/2014 10h05, última modificação 03/05/2014 11h53
Apenas 30% dos europeus estavam contentes em 2013. Os eurocéticos querem resolver a crise, mas os britânicos resistem ao mercado único. Por Gianni Carta
Andreas Solaro/AFP
Renzi

O prêmier italiano Matteo Renzi assume em julho a presidência do Conselho dos ministros da União e anuncia uma Europa baseada no crescimento

O premier italiano Matteo Renzi pretende renovar a União Europeia. Às vésperas de eleições para o Parlamento Europeu, entre os dias 22 e 25 de maio, Renzi, do PD de centro-esquerda, que em julho assumirá a presidência do Conselho dos ministros da UE, diz: “Queremos uma Europa baseada em crescimento e criação de empregos”. Organismo institucional executivo, o Conselho dos ministrosda UE determina atos legislativos e orçamentários em reuniões com 28 ministros do bloco. Avalia um diplomata: “Renzi busca alternativas para a austeridade pregada pelos eurocratas”. De fato, por causa da crise política e econômica na Zona do Euro, numerosos cidadãos europeus vão “desabafar suas frustrações contra os seus governos e instituições da União Europeia”, prevê Daniel Fiott, do Institute for European Studies, Vrije Universiteit Brussel. Segundo pesquisa realizada pelo think tank britânico Open Source, 30% dos cidadãos de 28 países darão preferência a agremiações populistas, isto é ultranacionalistas ou extremistas. Em miúdos, o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) e a Frente Nacional (FN), da França, entre outros, obterão 218 das 751 cadeiras em Estrasburgo.

Nigel Farage, o líder do UKIP, legenda favorita do reinado britânico nas europeias com expectativas de 31% do sufrágio, martela: “Queremos nosso país de volta”. Marine Le Pen, sucessora do pai Jean-Marie no comando da FN, eliminou os neonazistas da legenda e reconheceu o Holocausto. Mãe solteira, de 45 anos, ela encarna uma liderança seguida por extremistas de direita e esquerda em busca de uma nostálgica identidade nacional adulterada pela globalização. Afirma não ser xenófoba, embora seja favorável à expulsão dos roma. Comparou um grupo de muçulmanos a pregar em uma rua a “uma ocupação nazista”. Com sua cabeleira prateada, o excêntrico holandês Geert Wilders, líder do PVV, compartilha preconceitos com a amiga Le Pen. Para Wilders, a religião islâmica “é totalitária” e o Corão “fascista”.

Mas nem todos os descontentes são extremistas. Apenas 30% dos europeus estavam contentes com a UE em 2013, ante 52%, em 2007, segundo pesquisas. Os eurocéticos querem uma UE que resolva a crise econômica. Os conservadores britânicos, por exemplo, resistem ao mercado único. Não querem fazer parte da Zona do Euro, nem do espaço Schengen, que confere liberdade de circulação a europeus e de bens comerciais. Preocupado com a liderança do UKIP, o premier britânico David Cameron, cujo partido Tory ocupa a terceira posição na Grã-Bretanha, com 24% do sufrágio no Parlamento Europeu, promete um referendo sobre a participação do reinado na União Europeia. Sua tática é clara: reduzir os votos britânicos do UKIP.

Fiott acha “positiva” essa incursão extremista ao Parlamento Europeu. A razão? Os conservadores (PPE), social-democratas (S&D) e liberais (ADLE) “serão todos movidos para fora de sua zona de conforto, e isso pode ter impacto positivo sobre a política da UE”. Até agora, a seleção do presidente da Comissão era uma regalia do Conselho Europeu, que representa os chefes de Estado da UE. Raramente o Parlamento usou seu poder de veto para barrar a escolha. Desta feita, a legenda com mais votos poderá apresentar seu candidato ao Parlamento. Em miúdos, o Parlamento decidirá quem será o presidente da Comissão. Esse representa a União com o presidente do Conselho Europeu no exterior e estabelece, entre outros, o calendário da Comissão.

Segundo Fiott, “a personificação da presidência da Comissão resultará em uma mudança sutil à política da UE”. E ao eleger o presidente da Comissão, “os eurodeputados poderão ‘politizar’ o trabalho da União Europeia”. Fiott emenda: “Uma burocracia sem rosto se tornará um corpo político relevante”.

Visto que o Conselho Europeu é dominado por conservadores como a chanceler alemã Angela Merkel, ou o neoliberal português José Manuel Barroso, presidente da Comissão desde 2004. Ironicamente, o presidente do Conselho, Herman Von Rompuy, ainda resiste à ideia de um presidente da Comissão “eleito” pelo Parlamento. Renzi, em breve a comandar a presidência rotativa do Conselho dos ministros da UE, poderá contribuir, como se diz, a uma “personificação da UE”. Ele é apoiado, entre outros, por um forte candidato à presidência da Comissão Europeia, o alemão Martin Schulz, atual presidente do Parlamento Europeu pelo Partido Socialista Europeu (PES). Schulz, a parafrasear Renzi, diz: “A Itália é a quarta economia. Significa que se não houver crescimento na Itália, não haverá na Europa”.

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