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Número 798,

Cultura

Exposição

A verdade revolucionária de Josef Koudelka

por Rosane Pavam publicado 04/05/2014 11h18, última modificação 04/05/2014 11h57
Museu da Imagem e do Som em São Paulo apresenta as 75 obras realistas do tcheco que registrou a Primavera de Praga e de outros grandes fotógrafos
Gregory Crewdson/Josef Koudelka/Magnum Photos/Divulgação
bravo

O real aos prantos. Os russos em Praga, por Josef Koudelka

Em arte, o realista é frequentemente o triste, aquele que escaneia o mundo em sua porção desencontrada. Realista foi entendida a fotografia em seu início, quase uma prova jurídica do que o real (essa melancolia) deveria ser. Mas o tempo, aos poucos condutor de credibilidade artística ao ato de capturar imagens, encarregou-se de mostrar que a realidade é aquilo que o fotógrafo constrói. E agora o Museu da Imagem e do Som apresenta exposições e eventos fotográficos sob o signo dessa beleza triste (confira a programação).

O principal deles é a exposição de 75 fotos em preto e branco do tcheco Josef Koudelka. Invasão 68 – Primavera de Praga tem sido exibida pelo mundo desde que, na Nova York de 2008, marcou os 40 anos do desfilar de tanques soviéticos sobre a cidade europeia. Não fossem tais imagens, feitas na pulsão dos terríveis fatos pelo habitante de um vilarejo da Morávia, jamais sabedor, até ali, da existência da palavra fotojornalismo, e a imposição bélica sobre os tchecos talvez jamais tivesse sido informada ao mundo. Koudelka descobriu-se fotógrafo naquele momento, embora tivesse chegado dois dias antes de uma extensa viagem na qual, engenheiro aeronáutico, clicara os ciganos, nômades como ele próprio se via. Por quase duas décadas, sua identidade de autor exilado não pôde ser revelada, sob pena de a família padecer de represálias.

Icônico contribuinte da agência Magnum, destemido ao expor diretamente as emoções extremas e contextualizadas, Koudelka é um herói realista em caminho oposto ao de Gregory Crewdson, presente ao maio da fotografia com as 20 imagens extremamente coloridas de Por Baixo das Rosas. O americano de 52 anos retrabalha exaustivamente  cenas em estúdio para capturar com verossimilhança um senso de vazio na vida americana. E quem dirá que não é real o que ele vê? Assim como as obras de Robério Braga em torno de três tribos do Quênia ou daquelas de Valdir Cruz, sobre sua Guarapuava natal, buscam-se nessas fotografias o homem e a esperança sem os quais não seriam feitas as revoluções.

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