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Número 797,

Política

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Moralistas, tamo junto

por Vitor Knijnik, Rafael Cal — publicado 01/05/2014 10h34
Como escritor francês do século XVII, já espalhava frases de efeito a partir de jogos de palavras muito antes das redes sociais existirem. O bom mesmo é cagar regra. Blog do La Rochefoucauld
Do Blog do La Rochefoucauld
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Moralista francês (o que é quase uma redundância), um dos precursores do gênero de máximas e epigramas, divertimento social que se transformou em gênero literário. Sou uma mistura de meme com troll do século XVII, igualmente com pendor para o pessimismo

Como escritor francês do século XVII, já espalhava frases de efeito a partir de jogos de palavras muito antes das redes sociais existirem. Sem imagens de gatos ou powerpoints coloridos, claro. Mas, com todo esse clima de “é cool ser conservador”, resolvi transformar minha profissão de moralista em adjetivo, aproveitar a onda e voltar com tudo. Este é o momento perfeito para relançar minha obra. Todos têm o discernimento do que é certo e errado. A julgar pelos post, vivemos cercados de agentes de moral ilibada. Mas o cenário não é totalmente favorável. Algumas de minhas máximas se mostraram muito reflexivas para o século XXI. Ninguém tem muita paciência para papo-cabeça. O bom mesmo é cagar regra. Por isso, comento e reviso aqui alguns dos meus principais ditos. 

Portanto, vamos ao trabalho:

“Não devemos julgar os méritos de um homem pelas suas boas qualidades, e sim pelo uso que faz delas.”
Atualizando: não devemos julgar um homem pelo dinheiro que tem, e sim pelas coisas que ele compra.

“A virtude não iria tão longe se a vaidade não lhe fizesse companhia.”
Ultimamente, a vaidade tem preferido viajar sozinha.

“Há falsidades disfarçadas que simulam tão bem a verdade, que seria um erro pensar que nunca seremos enganados por elas.”
Serviria como uma desculpa melhor praqueles turistas que andam de madrugada no calçadão da praia de Copacabana e depois dizem que foram “agredidos” (sim, claro, imagina) por travestis.

“Um verdadeiro amigo é o maior de todos os bens e igualmente, de todos, aquele que menos nos preocupamos em adquirir.”
Mas os amigos falsos, sempre temos um bom jeito de comprá-los.

"O orgulho não quer dever e o amor próprio não quer pagar."
É por isso que o PIB não cresce.

“Perdoa-se à medida que se ama.”
A Receita Federal não ama você. Faz logo a declaração do IRPF.

"Todas as paixões nos levam a cometer erros, mas o amor faz-nos cometer os mais ridículos."
E pior que o amor para cometer erros ridículos, só álcool com energético.

"A ausência apaga as pequenas paixões e fortalece as grandes."
Já a presença acaba com tudo.

"A prudência e o amor não se fizeram um para o outro; à medida que o amor aumenta, a prudência diminui."
Dizem que a prudência já tem até perfil no parperfeito.com.br

“Não há ninguém que não se envergonhe de ter amado outro, quando o amor já acabou entre eles.”
Mesmo os ex-namorados da Susana Vieira.

“Um homem a quem ninguém agrada é mais infeliz do que aquele que não agrada ninguém.”
Essa continua em alta. Aliás, esse recurso é sempre bom: compare duas tragédias quando você quiser colocar alguém deprê pra cima.

“Nunca se é tão feliz ou infeliz como se imagina.”
Eis um feliz achado, imagino eu. Repararam como eu sou bom em fazer jogo com as palavras?

“Se julgarmos o amor pela maioria dos seus efeitos, ele assemelha-se mais ao ódio do que à amizade.”
E se o julgamento for ao STF, nem os embargos infringentes serviriam de atenuantes.

“Há pessoas desagradáveis apesar das suas qualidades e outras encantadoras apesar dos defeitos.”
Mas é preciso reconhecer um terceiro tipo: há pessoas desagradáveis e repletas de defeitos.

“É prova de inteligência saber ocultar a inteligência.”
Percebeu?

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