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Número 797,

Saúde

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Malarioterapia

por Drauzio Varella publicado 03/05/2014 11h22
Um dos parasitas, o Plasmodium vivax, pode ter reflexo positivo em casos neuropsiquiatras. Mas ainda é um perigo
Flickr / NIAID
Malária

O mosquito causador da malária

A malária transmitida pelo Plasmodium vivax não mata, mas faz você sentir-se à beira da morte.

A sabedoria popular criou esse adágio para caracterizar os sintomas de febre alta, calafrios, cefaleia, dores musculares e anemia provocados pelos ataques da forma mais comum da enfermidade.

Plasmodium vivax é uma das cinco espécies de parasitas causadores de malária em seres humanos. Durante muitos anos a malária por vivax foi considerada a forma “benigna” da doença, em oposição à forma “maligna” associada ao Plasmodium falciparum.

De fato, a malária por falciparum é mais grave, responsável por 650 mil óbitos anuais, número que corresponde a 90% das mortes pela doença no mundo todo – especialmente em crianças dos países da África, situados abaixo do Deserto do Saara.

Essa aparente benignidade do Plasmodium vivax permitiu que fosse usado como imunoterapia, a partir do fim do século XIX.

Nessa época, surgiram teorias de que episódios de febre alta poderiam melhorar quadros psiquiátricos. Um dos maiores defensores dessas ideias foi o psiquiatra austríaco Julius Wagner-Jauregg, que a partir dos anos 1880 tratou vários pacientes com toxinas causadoras de febre, como a tuberculina e a toxina da salmonela, com resultados desanimadores.

Em 1917, Wagner-Jauregg experimentou infectar portadores de sífilis terciária com o agente da malária.

Doença muito prevalente naqueles tempos sem antibióticos, a sífilis terciária instala-se quando o Treponema pallidum ataca o sistema nervoso central, provocando distúrbios neurológicos e quadros psicóticos.

O médico austríaco colheu sangue de um soldado que havia contraído malária na Guerra dos Bálcãs e inoculou-o em nove pacientes com neurossífilis. Seis deles apresentaram melhora.

Rapidamente, malarioterapia tornou-se state of the art no tratamento da sífilis terciária, na Europa inteira e nos Estados Unidos.

No período que vai de 1917 à descoberta da penicilina, nos anos 1940, dezenas de milhares de pacientes com sífilis terciária foram infectados com o parasita da malária. Cada clínica especializada usava sua própria amostra de Plasmodium. Depois de uma série de mortes por falciparum, a maioria delas concentrou-se em amostras de vivax.

Até hoje não se conhece o mecanismo pelo qual a malária estava associada à melhora dos quadros neuropsiquiátricos da sífilis terciária. É possível que o estímulo imunológico provocado pelo Plasmodium fosse suficientemente intenso para disparar uma resposta do sistema imune contra o Treponema.

O fato é que cerca de metade dos pacientes tratados melhorava o suficiente para retornar à vida cotidiana.

Pela descoberta, Wagner-Jauregg recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, em 1927.

Por outro lado, o uso medicinal do parasita foi o responsável pela fama de doença benigna que a malária adquiriria nos anos seguintes, reputação sem o menor fundamento. Apesar dos efeitos positivos no tratamento da neurolues, cerca de 15% dos pacientes inoculados com o parasita morriam de malária.

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