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Número 796,

Economia

Análise / Thomaz Wood Jr.

Investimento duvidoso

por Thomaz Wood Jr. publicado 22/04/2014 01h51, última modificação 22/04/2014 01h51
Destinar tempo e dinheiro à realização de certos cursos superiores pode ser divertido, mas mau negócio
SMBCollege / Flickr
Universidade

Vale a pena destinar tempo e dinheiro para fazer curso superior?

A educação formal é uma conquista da civilização. Cultiva a mente e a alma. E ainda alimenta os motores da mobilidade social, permitindo atender as nossas necessidades básicas e também as supérfluas. Maior o tempo dentro da escola, maior o salário fora dela. Não à toa, o ensino superior explodiu no Brasil, incluindo a pós-graduação. E a explosão motivou a cobiça de empresários e financistas, de olhos e bolsos sempre abertos às boas oportunidades de negócios.

Entretanto, não é preciso ser um gênio estatístico para notar que a linha reta ascendente que correlaciona horas-aula e dígitos no holerite representa uma nuvem povoada em suas bordas por sucessos excepcionais e fracassos retumbantes. Investir quatro ou cinco anos na realização de um curso superior pode ampliar o ciclo social, alimentar a vida cultural e estimular as conexões mentais. Entretanto, em muitos casos, pode não gerar retorno sobre o dinheiro investido em mensalidades, livros e outras despesas.

Ao norte do Rio Grande, onde os habitantes cultuam números e estatísticas, análises recentes exploraram as bordas da citada nuvem. A base de dados veio da PayScale Human Capital, uma organização que opera uma plataforma virtual para coletar e analisar salários. O banco de dados da empresa compreende egressos de mais de 900 instituições de ensino superior norte-americanas. Derek Thompson, em textos veiculados no website da revista The Atlantic, utilizou os dados para indicar quais eram as melhores universidades e os melhores cursos para quem quer ganhar dinheiro; e, na ponta oposta, quais eram as piores universidades e os piores cursos, aqueles incapazes de gerar renda que cubra o que foi investido.

No primeiro grupo foram identificados os suspeitos usuais – MIT, Stanford, Princeton e Harvard – e algumas surpresas – como o Harvey Mudd College, da Califórnia. Quanto aos cursos, nenhuma surpresa: ciências da computação, ciências da computação e ciências da computação. Conclusão: aspirantes a milionários podem buscar o calor da Califórnia ou o frio de Boston, desde que nutram paixão por bits e bytes. Se a perspectiva não for sedutora, uma graduação em administração, engenharia ou economia em uma das boas escolas ianques pode também retornar magnificamente o investimento realizado.

No segundo grupo, Thompson listou obscuras universidades do Alabama e outros recantos remotos da pátria de Obama. Entre os cursos, concluiu que os de artes, pedagogia e língua inglesa provavelmente deixarão seus egressos à míngua. Podem ser ótimos para expandir o espírito, mas são péssimos para preencher o bolso.

Para os humanistas preocupados, a saída para evitar uma existência de penúria, a dilapidar a herança familiar ou viver de benesses estatais, é fazer o curso em uma escola de ilibada reputação, como a Columbia, citada pelo autor. Ainda assim, o cidadão que fizer a graduação em artes verá seu colega economista amealhar o dobro da renda e seu colega formado em informática ganhar três vezes mais. Naturalmente, é temerário colocar um preço no benefício da educação. No entanto, se o jovem cidadão tem família e precisa ganhar a vida, então é recomendável buscar uma formação que o ajude a pagar as contas.

Vale a pena (financeiramente) fazer faculdade? Nem sempre. Uma escolha errada pode condenar o futuro profissional ao subemprego e a frustrações. Ao norte do Rio Grande, os números ajudam na tomada de decisões. Cá nos trópicos, rareiam as estatísticas, mas não faltam suspeitas. Sobram-nos cursos anacrônicos, afastados das demandas da sociedade ou das organizações. Sobram-nos também programas criados e geridos exclusivamente para atrair massas de incautos.

Transparência nas informações, como aquelas oferecidas por PayScale, e o avanço do ensino aberto à distância tendem a aumentar a pressão sobre as instituições de ensino superior. Aquelas que não souberem responder a altura sentirão a busca por vagas minguar e a qualidade do corpo discente decair. As instituições capazes de oferecer um futuro melhor pelo tempo e recursos investidos por seus alunos terão mais chance de ser bem-sucedidas. Bom para elas, para seus egressos e para a sociedade.

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