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Número 795,

Economia

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

Persistência inflacionária

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 15/04/2014 05h00
Choques de oferta devem ser tratados com cautela para não contaminar de forma adversa as expectativas

A política monetária é a senhora dos corações e das mentes. Nos Estados Unidos, na Europa, no Brasil, as decisões dos bancos centrais na fixação das taxas de juro básicas são aguardadas pelos mercados como a palavra de Roma era esperada pela cristandade. Nas economias contemporâneas – diz Michel Aglietta, consultor do Banco Central Europeu – cabe à política monetária “fixar o ponto focal que permite aos agentes coordenar suas antecipações enquanto estabelecem seus planos de ação”. O último grito na matéria é a política de metas de inflação. Assim, a política de metas trata de definir um espaço de variação das taxas de inflação em que se supõe preservada a confiança na moeda.

Os agentes privados têm de acreditar nessa convenção precária e transformá-la numa âncora nominal, num centro de gravitação de suas decisões, girando como a Terra em torno do Sol. Em boa medida, a estabilidade monetária é produto de uma ilusão necessária que torna possível à moeda cumprir simultaneamente suas funções de unidade de conta, meio de circulação e reserva de valor. Essa ilusão deve ser suficientemente enraizada para permitir o movimento de preços relativos, a operação de forças da oferta e da demanda e a valorização conjunta dos ativos instrumentais e financeiros destinados à criação de valor e à preservação do valor já criado.

O regime de metas de inflação foi condecorado, em muitos países, com as honrarias que celebram a vitória contra o dragão da maldade. O regime de metas, dizem os entendidos, tem o propósito de definir a regra ótima de reação do banco central. Trata-se da regra que, ao longo do tempo, fortalece a confiança dos mercados no manejo da taxa de juro de curto prazo entregue à responsabilidade dos BCs. Ao adequar suas decisões às expectativas (racionais) dos formadores de preços e dos detentores de riqueza, os bancos centrais tornam mais suave o processo de manutenção da estabilidade, reduzindo a amplitude das flutuações da renda e do emprego.

Em uma economia monetária, ao contrário do que pretende a dicotomia ortodoxa, seja ela monetarista ou não, o sistema de preços relativos não é independente dos preços monetários, ou seja, os agentes econômicos devem “descobrir” os preços relativos a partir dos preços nominais. Isso torna ambíguo o reconhecimento da inflação. Nem toda a elevação de preços nominais é indício de aceleração inflacionária. A subida de preços nominais pode resultar de choques temporários nos preços das matérias-primas e dos alimentos. Choques de oferta devem ser tratados com cautela para não contaminar de forma adversa as expectativas dos agentes formadores de preços.

Assim, a condução da política monetária depende da capacidade de o banco central compreender, em cada situação concreta, os canais de transmissão monetária e os mecanismos de propagação inflacionária. A deflagração de um processo inflacionário, depois de um choque de oferta, pode ser observada em economias que padecem os incômodos da inflação persistente.

Em artigo recente, o economista do FMI Shaun K. Roache define a persistência inflacionária como a tendência dos choques de preços de desviar, por um período prolongado, a taxa de inflação de sua trajetória desejada, definida pela meta de inflação. A persistência é importante porque afeta os custos de se levar a inflação para a meta, avaliados pelo “sacrifício” imposto à produção e ao emprego.

Diz Roache que “países com alta persistência necessitam operar uma mudança no tratamento dos choques de preços diante de sua influência negativa nas expectativas inflacionárias por um longo período”. Os fatores “estruturais” responsáveis pela “persistência”, afirma o economista do FMI, são: 1. A impropriedade da função de reação das autoridades ao choque de preços e/ou 2. A inércia decorrente da indexação praticada pelos formadores de preços.

Ao examinar o caso brasileiro, Roache, ao longo de minucioso tratamento econométrico, testa as duas hipóteses a respeito da persistência inflacionária. 1. Os agentes podem acreditar que a política monetária vai responder de maneira inadequada a um choque transitório de oferta, com repercussões indesejáveis sobre a inflação subjacente. Isso poderia ser comprovado pelos efeitos mais duradouros de uma “surpresa inflacionária” sobre as estimativas de inflação futura. 2. A explicação alternativa para a persistência inflacionária apoia-se na existência de um amplo espectro de preços indexados.

Roache conclui: “A estratégia empírica que utilizei neste estudo não permite identificar a resposta correta”.

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