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Número 795,

Internacional

Índia

O elefante se move

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 20/04/2014 07h27, última modificação 20/04/2014 08h17
A mais populosa democracia do mundo decide seu futuro em uma eleição de dimensões inéditas. Por Antonio Luiz M. C. Costa
Indranil Mukherjee / AFP
Índia

Fundamentalismo. Inflação e desemprego favorecem a direita populista liderada por Narendra Modi, cúmplice do massacre de muçulmanos de Gujarat em 2002

É a maior eleição do mundo – 815 milhões de eleitores – e também a mais complicada, com mais de 370 partidos e nove diferentes datas, de 7 de abril a 12 de maio, em que votarão sucessivamente os 28 estados e sete territórios da federação. Pode ser também uma das mais decisivas, pois a Índia, com 1,24 bilhão de habitantes, é hoje uma das maiores economias do mundo (a décima em PIB nominal, mas a terceira em termos de paridade de poder de compra), será em mais 15 anos o país mais populoso do mundo, tem capacidade espacial e armas nucleares e sérias aspirações a se tornar uma superpotência.

Na maior parte do tempo desde a independência, em 1947, a nação foi governada pelo partido do Congresso Nacional Indiano, laico e social-democrata e dirigido quase monarquicamente pela dinastia Nehru-Gandhi: Jawaharlal Nehru até a morte natural em 1964, sua filha Indira Gandhi (sem parentesco com o Mahatma, apesar do sobrenome) de 1966 até seu assassinato pelos próprios guarda-costas sikhs em 1984, o neto Rajiv Gandhi de 1984 a 1989, quando o partido sofreu sua primeira derrota em eleições nacionais. Rajiv foi assassinado em 1991 por guerrilheiros tâmeis, a viúva Sonia Gandhi assumiu a liderança do partido pouco depois e seu filho Rahul Gandhi é hoje o potencial primeiro-ministro.

Após a derrota de 1989, o poder se alternou entre o Partido do Congresso e forças de direita populista, identificadas com a cultura e a religião hindu e com um fundamentalismo que ameaça os não religiosos e as minorias religiosas (20% da população). Destas, a mais importante é a muçulmana, seguida por cristãos, sikhs, budistas e jainistas e a ameaça não é só de marginalização, mas é questão de sobrevivência física.

Narendra Modi, líder do Partido do Povo Indiano ou Bharatiya Janata Party (BJP, pela sigla em inglês) governa o estado de Gujarat desde 2001. Em 2002, seu estado presenciou uma onda de violência contra muçulmanos que teve a cumplicidade da polícia e deixou mais de mil mortos. Modi foi acusado como incitador e cúmplice da violência por muçulmanos e pela Human Rights Watch. O inquérito da Justiça indiana o absolveu por falta de provas, mas os Estados Unidos lhe negam visto desde 2005. Modi não pediu desculpas por seu papel na violência e, em 2013, recusou condenar novo massacre em Uttar Pradesh, que, iniciado por um acidente de trânsito (ou, segundo outros, pelo assédio de um rapaz muçulmano a uma jovem hindu), deixou 49 mortos e expulsou 50 mil de suas casas. Comentou lamentar o sofrimento dos muçulmanos tanto quanto o de um cachorrinho atropelado por um carro, o que depois justificou dizendo que, como hindu, respeita igualmente todas as formas de vida.

Por uma lenda, fanáticos destruíram a mesquita de 1527Como outros fundamentalismos religiosos, a versão hindu leva ao pé da letra suas escrituras sagradas, idealiza o passado e alimenta crenças bizarras, inclusive a de que a civilização indiana existe há quase 2 bilhões de anos e tinha uma avançada “ciência védica”, inclusive com máquinas voadoras e armas nucleares, nos tempos do épico Ramayana. Em nome de fantasias como essa, 150 mil fanáticos hindus arrasaram, em 1992, a bela e histórica mesquita construída em 1527 pelo sultão Babur em Ayodhya, no atual estado de Uttar Pradesh. Para os fundamentalistas hindus, fora construída no local de nascimento do mítico herói Rama, avatar de Vishnu, o que, é óbvio, não tem qualquer base histórica ou arqueológica.

A devastação foi incitada e organizada pelo BJP, então no comando do estado. Entre os responsáveis diretos, segundo a investigação do governo federal (então do Partido do Congresso), estavam Atal Behari Vajpayee, que lideraria o primeiro governo nacional do BJP de 1998 a 2004, e Modi, o atual candidato, mas não houve punições. As consequências dessa insensatez repercutem até hoje. Os massacres de 2002 foram deflagrados em retaliação a um ataque de muçulmanos a um trem que levava devotos hindus a uma cerimônia religiosa com a intenção de marcar o início da construção de um templo hindu sobre as ruínas da mesquita. A Justiça indiana, que inicialmente ordenara a preservação da mesquita, decidiu, após a consumação do vandalismo, uma absurda divisão do terreno em três partes entre uma organização muçulmana e duas hindus, o que continua a provocar conflitos entre as comunidades.

Ao fim do mandato de Vajpayee, em 2004, os eleitores voltaram a dar a vitória ao Partido do Congresso. Na falta de um herdeiro adequado da dinastia Nehru-Gandhi, pois Sonia é indiana naturalizada (é italiana de nascimento, o que não é impedimento legal, mas prejudicou o partido ante o BJP na campanha para a eleição de 1998) e o filho Rahul era jovem demais, o partido escolheu o primeiro premier não hindu da história da Índia, o sikh Manmohan Singh (reeleito em 2009, continua no cargo). Na ocasião, o Partido do Congresso teve 37% dos votos, um crescimento de 4% em relação à eleição anterior, ao passo que o BJP teve 25% (queda de 5%) e o Partido Comunista-Marxista, terceiro maior da Índia, 21% (queda de 1%). O adjetivo “marxista” o distingue do Partido Comunista Indiano, mais tradicional, hoje menor, do qual (assim como o PCdoB brasileiro) surgiu originalmente como uma dissidência maoista.

Desta vez, o BJP vencerá, sugerem as pesquisas, mas não por uma margem suficiente para governar sozinho. Mais do que em 1998, quando sua coalizão teve 37% e necessitou do apoio de apenas um dos pequenos partidos regionais para governar, provavelmente precisará fazer alianças complicadas. As razões para o desgaste do Partido do Congresso nos últimos anos são várias, mas a principal é a piora do desempenho econômico, com o pano de fundo de uma conjuntura internacional que também afetou os outros BRICS e a maioria dos países “emergentes”. De 10,5% em 2010, o crescimento caiu para 6,3% em 2011, 3,2% em 2012 e 4,8% em 2013, relativamente pouco para um país cuja população cresce a um ritmo de 1,5% ao ano e precisa criar 15 milhões de empregos anuais. Para 2014, espera-se 6,2%.

A maior queixa dos eleitores, segundo as pesquisas de opinião, é a inflação: de 3,7% em 2004, saltou para entre 9% e 12% no segundo governo Singh, seguida por desemprego e desigualdade. Falta de água, eletricidade, escolas, estradas e a infraestrutura continuam problemas crônicos para grande parte dos indianos e a corrupção é assunto diário nos jornais. Além disso, o herdeiro Rahul Gandhi, hoje com 43 anos, é apresentado pela mídia como uma personalidade fraca e incapaz de tomar decisões difíceis. Isso parece refletir o ponto de vista do empresariado, que o vê como um príncipe mimado originado das castas superiores, em contraste com Modi, um ex-comerciante de chá de casta inferior (mas não dalit) vendido como um self-made man ousado, forte e decidido a fazer as “reformas” de que o país precisa.

Até mesmo uma parcela dos dalits (16% da população), beneficiários de políticas de quotas (as primeiras do mundo, em vigor desde 1947) e assistenciais criadas pelo Partido do Congresso, mas que têm visto aumentar o abismo entre sua situação e a das castas superiores, foi em parte seduzida pelas promessas de recuperação econômica de Modi. Estas são respaldadas na impressão de que o estado de Gujarat teve um crescimento excepcional, o que é mais propaganda do que fato. Modi atraiu fábricas da GM e da Ford e outros investimentos com incentivos fiscais, mas em termos de crescimento de 2005 a 2012, a média de seu estado, um pouco melhor que a indiana (10% a 8%), ficou atrás de Uttarakhand (12%) e Délhi (11%) e foi igual ao do importante estado de Maharashtra (10%), todos governados pelo Partido do Congresso. Além disso, Gujarat teve um desempenho medíocre nos quesitos da redução da pobreza e da mortalidade infantil e melhora do acesso à água potável, pior que o de muitos estados mais pobres ou de menor crescimento. A mídia conservadora o apresenta como uma versão indiana de Margaret Thatcher, com métodos deconstrução da imagem que  lembram o conto de Fernando Collor, o “caçador de marajás”.

Em termos de política externa, não se espera da vitória do BJP uma guinada. Tratada como questão suprapartidária, tem sido conduzida de maneira semelhante pelos dois principais partidos. A decisão da Índia de se associar estrategicamente ao Brasil e à África do Sul no Ibas foi tomada no governo anterior do BJP e continuado pelo Partido do Congresso, como também a de testar armas nucleares – atitude aceita pelos EUA, a despeito da política de não proliferação. Apesar das inclinações nacionalistas e islamofóbicas, o BJP parece mais disposto a fazer negócios com os rivais China e Paquistão do que a desafiá-los no campo geopolítico. O perigo é o risco de exacerbação do conflito interno, que pode levar à instabilidade esse grande país até aqui notavelmente bem-sucedido como democracia. Além dos conflitos religiosos, a guerrilha maoista e as tensões étnicas são crônicas em muitas regiões. Vale notar que, se os eleitores se decepcionarem tanto com o Partido do Congresso quanto com o BJP, o resultado pode ser a ascensão dos comunistas, força que tem crescido notavelmente nas últimas eleições.

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