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Número 795,

Economia

Análise / Paul Krugman

Dar ouvido às vozes erradas

por Paul Krugman — publicado 18/04/2014 07h51, última modificação 18/04/2014 07h53
Opiniões conduzidas pela indústria financeira influenciaram a virada de Barack Obama para o déficit. Por Paul Krugman
Saly Bechsin/Flickr
Hollande

A política econômica de governos de esquerda (como a de François Hollande na França) é patética?

O Economista de Oxford Simon Wren-Lewis perguntou recentemente em seu blog: “Por que a política econômica seguida ou proposta pela esquerda na Europa muitas vezes parece tão patética?” Ele citava o governo de François Hollande na França como o exemplo máximo, e a indecisão do Partido Trabalhista na Grã-Bretanha. Sugeriu que a resposta é uma questão de recursos e organização: “Buscar bons conselhos (e distingui-los dos maus conselhos) exige ou dinheiro ou tempo”, escreveu. “Um governo estabelecido acha isso muito mais fácil do que um governo novo ou de oposição.”

Tivemos nossa própria versão do tipo esquerda falhando totalmente em atacar a macroeconomia da austeridade nos Estados Unidos – a “virada” do presidente Obama dos empregos para os déficits, em 2009, quando os democratas ainda controlavam as duas Câmaras do Congresso. E não apenas Obama era um presidente em exercício com maioria no Congresso, como o progressismo moderno nos EUA tem um grande aparelho de análise política fora do governo, boa parte do qual argumentava insistentemente contra a virada.

Mas lá estava Obama, em novembro de 2009, a advertir que os déficits excessivos poderiam causar uma recessão profunda. Como isso aconteceu? Eu atribuiria à influência das “pessoas muito sérias”, cujas opiniões sobre economia tendem por sua vez a ser conduzidas amplamente pela indústria financeira. É difícil acreditar, mas quando Obama esteve na Fox News dizendo que o déficit era uma enorme ameaça, houve rumores generalizados de que ele em breve substituiria Tim Geithner, ex-secretário do Tesouro, por Jamie Dimon, executivo-chefe do JPMorgan Chase. E o que as pessoas da indústria financeira diziam a Obama era que tomasse cuidado com os invisíveis vigilantes dos títulos.

É mais ou menos a mesma coisa na Europa. O Partido Trabalhista deveria estar escutando economistas como Jonathan Portes e Wren-Lewis, mas tenho certeza de que seus líderes estão mais interessados nas opiniões dos homens elegantes da City.

Hollande pode ser um homem de esquerda como não há na política americana, mas ainda recebe conselhos de banqueiros que lhe dizem que a retidão fiscal é tudo. (Embora a França possa estar muito à esquerda dos EUA, não tem nada parecido com a infraestrutura intelectual do movimento progressista americano para se contrapor à suposta sabedoria do grande dinheiro.)

Sempre foi assim. Mas a natureza de nossa atual situação econômica é que a política inteligente exige que se ignore o que dizem as pessoas supostamente responsáveis, que soam como se soubessem do que estão falando – e, veja, elas são ricas, portanto devem saber alguma coisa. E nenhum governo de esquerda moderada teve a coragem moral e intelectual de fazer isso.

Não importa a liberdade de expressão, de religião, do desejo, do medo. O que os combativos bilionários americanos estão exigindo como direito de nascença é algo muito mais importante: liberdade de críticas.

Adotando uma posição desesperada no Wall Street Journal, homens oprimidos e heroicos como Tom Perkins e agora Charles Koch vêm dizendo como é: qualquer pessoa que diga alguma coisa negativa sobre eles é exatamente igual aos nazistas, ou talvez Stalin.

O assassinato de personagens é a marca do coletivismo. Você nunca, jamais, veria o Wall Street Journal fazer isso; e os liberais absolutamente nunca são submetidos a ataques pessoais de conservadores. Oh, espere. Mas a liberdade de crítica não deve ser um direito universal. É para os criadores de empregos. De qualquer modo, é interessante como essas pessoas têm a pele tão fina.

É incrível como os bilionários são rápidos para se retratar como vítimas, porque algumas pessoas dizem coisas feias sobre eles. Um aspecto notável dessa choradeira é que as coisas feias não são realmente tão feias. Quando alguém diz que os irmãos Koch usam sua riqueza para promover uma agenda política que os tornará ainda mais ricos, essa pessoa está fazendo uma afirmação substancial, e não se envolvendo em assassinato de personagem.

O negócio é que eu não acho que essas reações choramingantes sejam apenas encenação. Acho que são reais. Os bilionários realmente estão se sentindo vulneráveis, apesar de sua riqueza e seu poder, ou talvez por causa deles. É meio triste, na verdade, mas também mais que um pouco assustador: quando pessoas com egos frágeis têm grande poder, coisas muito ruins podem acontecer.

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