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Número 795,

Sociedade

Copa do Mundo

A Copa do Mundo, aos 45 do 2º tempo

por Miguel Martins, Rodrigo Martins — publicado 16/04/2014 05h02, última modificação 06/06/2015 18h09
A dois meses do Mundial, o governo corre para entregar as obras em meio à desconfiança geral da população
AFP

No ano passado, a Copa das Confederações gerou 303 mil empregos e movimentou 20,7 bilhões de reais na economia, dos quais 9,7 bilhões acabaram incorporados ao PIB. Divulgado pelo Ministério do Turismo na segunda-feira 7, o estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas traz uma previsão ainda mais alvissareira: o retorno da Copa do Mundo deve ser três vezes maior em 2014. O governo federal teve pouquíssimo tempo para celebrar os dados positivos. Acabou surpreendido, um dia depois, com uma pesquisa do Datafolha, a indicar que 55% da população acredita que o Mundial trará mais prejuízos que benefícios. A rejeição ao megaevento atingiu a pior média da série histórica: 41%. Nem mesmo durante o período de maior efervescência das manifestações do último ano o desencanto foi tão grande.

É compreensível a desconfiança de parcela da sociedade, incomodada com os elevados custos para a realização da Copa. O evento consumiu perto de 30 bilhões de reais, valor bancado, sobretudo, pelo poder público (85%, segundo estimativa da consultoria BDO). Em 2007, quando o Brasil foi escolhido para sediar o Mundial de 2014, um levantamento da Fifa previa gastos equivalentes a 2,7 bilhões de reais para a reforma e construção de novos estádios. No último balanço do governo, divulgado em setembro de 2013, a conta ultrapassou a marca de 8 bilhões. E pode ficar mais cara.

Em janeiro de 2010, quando o Ministério do Esporte divulgou a primeira versão da Matriz de Responsabilidades, estavam previstas 50 intervenções de mobilidade urbana, ao custo de 11,59 bilhões de reais. Ao menos 13 obras foram, porém, excluídas da relação. É o caso do VLT de Brasília, que teve o projeto paralisado após denúncias de superfaturamento. Outras 16 obras foram incluídas posteriormente, mas estão longe de oferecer um legado a toda a população. A maior parte está localizada no entorno dos estádios, entre elas a pavimentação das áreas próximas ao Beira-Rio e duas pequenas intervenções nos arredores da Fonte Nova, em Salvador. Não por acaso, o orçamento para mobilidade encolheu 3 bilhões de reais.

Para completar o cenário negativo, algumas das linhas de BRT (Bus Rapid Transit, em inglês) e VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) não ficarão prontas para a Copa, bem como outras intervenções urbanas. É o caso do VLT de Cuiabá, previsto agora para 2015, e uma das linhas de BRT de Fortaleza, com menos de 10% das obras concluídas. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, assegura, entretanto, que nenhum projeto foi descartado. “Essas obras estavam previstas para serem executadas independentemente de o Brasil sediar a Copa”, afirma, em entrevista a CartaCapital (pág. 40). “Aquelas que não ficarem prontas a tempo serão entregues depois.”

Rebelo dá como finalizadas as obras dos estádios da Copa. Foram realizados eventos-teste em 11 das 12 arenas. A exceção é a Arena Corinthians, conhecida como Itaquerão, que começou a ser erguida apenas em 2011, após o Morumbi ser rejeitado como sede dos jogos da Copa em São Paulo. Em velocidade recorde, o Corinthians obteve as autorizações necessárias para a construção, acertou uma isenção fiscal com a prefeitura de 420 milhões de reais e garantiu um empréstimo junto ao BNDES de 400 milhões de reais, com juros de 0,41% ao mês. Três anos para iniciar e concluir uma obra tão complexa não é dos prazos mais folgados. As consequências da pressão por celeridade arrebentaram do lado mais fraco: os operários.

Uma legião de trabalhadores, muitos deles corintianos, dedicou-se a erguer a nova casa alvinegra, mas sem condições adequadas de segurança. A queda do guindaste, em novembro de 2013, resultou na morte de dois operários. Cogita-se como motivo a fragilidade do solo do terreno, que teria cedido por causa do peso da estrutura de 114 metros. Foi o sinal para uma fiscalização mais rigorosa do Ministério Público do Trabalho (MPT) em São Paulo. Após o primeiro acidente, o órgão verificou que muitos dos operários estavam sendo submetidos a jornadas de 10 horas. Apesar de permitidas por lei, as 2 horas extras elevavam a fadiga dos trabalhadores e os riscos de acidentes. Por esse motivo, o Ministério do Trabalho exigiu a contratação de mais operários. Mas os problemas persistiram.

Em 29 de março, o operário Fábio Hamilton da Cruz caiu de uma altura de 8 metros, enquanto trabalhava na montagem das arquibancadas temporárias. Foi a oitava morte em obras para o Mundial. Na Copa da África do Sul, foram duas.

Construído para abrigar 48 mil torcedores, o Itaquerão ganhará um setor provisório erguido exclusivamente para a Copa, o que eleva o número de assentos para 65 mil. Cruz trabalhava na estrutura das arquibancadas temporárias. O cabo que o sustentava era curto demais. Faltavam ainda andaimes acolchoados ou redes de segurança. Após o acidente, o Ministério do Trabalho realizou uma auditoria no local, supervisionada pelo superintendente Luiz Antonio Medeiros.

As obras do setor sul, onde ocorreu o acidente, ficaram embargadas até a segunda 7.

O fim da intervenção gerou polêmica. Medeiros declarou à mídia que, caso não fosse um estádio da Copa, os auditores teriam paralisado a obra. Em 3 de abril, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, rechaçou, por meio de nota, a declaração. Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians e porta-voz das obras do estádio, diz não acreditar em vista grossa das autoridades. “Se houver irregularidades nas obras, elas têm de ser paralisadas.”

Na quinta-feira 10, auditores do MPT confirmaram que equipamentos de segurança foram instalados no local do acidente. O procurador do trabalho Roberto Ribeiro, que atua direta ou indiretamente em quatro inquéritos abertos pelo órgão relativos às obras do estádio, teme agora o processo de desmonte das instalações provisórias após a Copa. “Muitos dos equipamentos são alugados e provavelmente haverá pressa para a retirada.” O jogo entre Corinthians e Flamengo, previsto para 27 de abril, marcaria a inauguração da arena. Mas Sanchez não tem mais certeza de que isso será possível.

A expectativa também é grande em relação às chamadas estruturas temporárias. Em documento assinado em 2009, os donos dos 12 estádios da Copa do Mundo se comprometiam a providenciá-las e arcar com os custos. No contrato, entretanto, não havia detalhes das intervenções necessárias ou a estimativa do preço.

Os três estádios privados da Copa foram justamente aqueles que buscaram saídas para não custear as obras. No caso do Itaquerão, cogitou-se a possibilidade de a Fifa assumir a conta. Sanchez apressa-se a dizer que o clube cobrirá os gastos. O Internacional de Porto Alegre, dono do Beira-Rio, inaugurado no último fim de semana, obteve um acordo com o governo gaúcho, que conseguiu na Assembleia Legislativa a aprovação de uma lei para oferecer isenção fiscal às empresas responsáveis pelas obras. Medida semelhante foi adotada no caso da Arena da Baixada, com inauguração prevista para 15 de maio.

A demora suscita outro temor: o tempo hábil para a instalação do sistema de telecomunicações e da rede de fibra óptica para a transmissão dos jogos. O Ministério das Comunicações garante que está “tudo dentro do cronograma”, mas a insegurança foi o principal motivo que levou o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, a sugerir a possibilidade de a Copa no Brasil ser “a pior de todos os tempos”. Não para os cofres da entidade, registre-se. A Fifa deve arrecadar 5 bilhões de dólares com a Copa no Brasil, valor 36% superior ao do Mundial da África do Sul e 110% maior que o da Alemanha.

Outra preocupação é com os protestos. Embora Rebelo considere o movimento “artificial”, incapaz de voltar a mobilizar multidões, ele não esconde a preocupação com a repetição de atos de extrema violência, como o que resultou na morte de um cinegrafista no Rio de Janeiro. Descarta, contudo, a possibilidade de o governo mobilizar o Exército na repressão. “A Polícia Militar está preparada.”

O atraso nas obras do aeroporto de Confins, em Minas Gerais, é mais um foco de apreensão. Alguns voos da Copa deverão seguir para Pampulha, o aeroporto alternativo que não resistiu ao temporal de 2 de abril, e teve o seu saguão inundado pela chuva. O ministro do Turismo, Vinicius Lages, minimiza os gargalos na mobilidade e na infraestrutura aeroportuária. “O Carnaval mobiliza uma quantidade maior de turistas do que a Copa. Mesmo com algumas obras inconclusas, faremos uma grande festa.”

Além disso, o governo aposta que a percepção negativa da população pode ser revertida durante a Copa, a exemplo do ocorrido em Londres. Um ano antes de a cidade sediar as Olimpíadas de 2012, 48% da população do Reino Unido não aprovava os elevados gastos públicos para a competição. Os custos finais foram equivalentes a 31 bilhões de reais, quase quatro vezes o valor do orçamento inicial. Ainda assim, dois em cada três cidadãos britânicos afirmaram, em pesquisa divulgada pela BBC em 2013, que o investimento valeu a pena.

Além dos 600 mil turistas estrangeiros esperados para a Copa no Brasil, Lages prevê a ampliação do número de visitantes anuais do País para 7,9 milhões até 2016. Atualmente, são cerca de 6 milhões. “A Copa mobiliza mais de 2 bilhões de telespectadores no mundo. É uma oportunidade única de consolidar o Brasil como destino internacional.”

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