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Número 794,

Economia

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

Os riscos das agências

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 09/04/2014 05h32
Na crise, afundaram suas reputações nas areias movediças da falta de ética e no conflito de interesses

Hoje em dia, a palavra de ordem é fazer genuflexão diante dos poderes da finança. A conversinha da “confiança” oculta a usurpação das decisões e das informações que afetam a vida dos cidadãos pelo “cérebro” da finança. Poderosos na formação de consensos e na captura dos corações e mentes mediante patranhas midiáticas, a tropa da finança abusou da prepotência  quando incumbida de definir os critérios de avaliação do risco no festival de falcatruas que levou ao colapso de 2008.

No pelotão de frente formavam as ditas agências de classificação de risco. Com a cumplicidade da Securities Exchange Comission, lograram se instituir em tribunais da qualidade das securities e de seus emissores, além de dar notas à gestão econômica e financeira dos Estados Nacionais.

No frigir da crise, afundaram suas reputações nas areias movediças da falta de ética e no conflito de interesses. Depois da derrocada do Lehman Brothers, agraciado com “A” uma semana antes de ruir fragorosamente, a Moody’s rebaixou para “lixo” 73% das securities avaliadas em 2006 como AAA. As trapalhadas e malfeitorias estão registradas no relatório do Congresso americano sobre a crise de 2008 e nas transcrições dos debates que levaram à promulgação da Lei Dodd-Frank.

No Olimpo da finança, homens que não sabem o que fazem ganham o que não merecem. São perdoados em nome da meritocracia (argh!) e da “criatividade destruidora”. Não espanta que os fâmulos da metafísica dos mercados eficientes, guiados pela sabedoria da racionalidade do Homo oeconomicus, se entreguem à farsa pseudocientífica dos modelos engalanados por matemática de segunda classe. Com tais expedientes ridículos e abstrações idiossincráticas, ocultam a natureza das transformações na geoeconomia e perseguem a desqualificação mesquinha dos critérios da ação política racional e democrática.

Diante da configuração atual do poder global, a esfera pública está acuada nos gigantescos monopólios de comunicação, submissos aos poderes da mão invisível da finança e incumbidos de manter sob estrita vigilância os governantes que, porventura, ousem desafiar os diktats facinorosos das agências de risco. Em sua brutalidade anônima, os mercados da riqueza escoltados pelos estelionatários das agências de risco impõem aos países e a seus cidadãos os ucasses da ignorância soberana.

As erráticas e aparentemente inexplicáveis convulsões das bolsas de valores ou as misteriosas evoluções dos preços dos ativos e das moedas são capazes de destruir as condições de vida de povos e países. Mas o consenso dominante trata de explicar que se não for assim sua vida pode piorar ainda mais. A formação desse consenso é, em si mesmo, um método eficaz de bloquear o imaginário social, numa comprovação dolorosa de que as criaturas da história humana adquirem dinâmica própria e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.

Para a vida privada sobrou o narcisismo e o voyeurismo dos reality shows ou das mídias sociais, espaços em que sacolejam os embustes e as enganosas liberdades que se exprimem em 140 caracteres. O próximo passo, imagino, é o grunhido. O crepúsculo do século XX e os albores do século XXI presenciam o aprisionamento da política democrática pelas forças do verdadeiro poder concentrado na mobilidade do capital-dinheiro e na monopolização brutal do capital produtivo, protagonistas da Grande Transformação orquestrada pelo capital financeiro globalizado. Hoje é a lógica da finança globalizada que delimita o território ocupado pela política democrática.

O Iluminismo e a Revolução Francesa nos legaram a sociedade moderna, encharcada das pretensões da igualdade e da liberdade. Não é possível negar que, entre excrescências totalitárias e as misérias do narcisismo de massas, o capitalismo avançou de forma contraditória, impulsionado pela tensão permanente entre as forças e valores da concorrência e os anseios de realização da autonomia de um indivíduo integrado responsavelmente na sociedade.

Do ponto de vista ético, esse conflito desenvolve-se entre a dimensão utilitarista da sociabilidade, forjada na indiferença do valor de troca e do dinheiro e os projetos de progresso social que postulam a autonomia do indivíduo. Autonomia no dicionário dos tempos modernos significa reivindicar o direito à singularidade, à diferença e, ao mesmo tempo, afirmar o que Robert Bellah chamou de pertinência cívica.

Essa perspectiva projeta a democracia para além do resultado das urnas, ao obrigá-la a contemplar a construção da participação da cidadania nas decisões cruciais para a vida e o destino de mulheres e homens.

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