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Número 794,

Cultura

O Som da Imagem

Música para uma dama

por Oliviero Pluviano — publicado 29/04/2014 18h13
Ao vê-la, ouvi um piano lento, ou o terno toque de Anna Claudia Agazzi, ou Prelúdio em Si Menor, de Domenico Zipoli
Oliveiro Pluviano
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A diva. Não é ela, mas se parece

Há algumas semanas, no aeroporto de Zurique, descia pelas escadas rolantes degustando uma prazerosa trufa de chocolate Sprüngli que comprara pouco antes em um quiosque, uma marca suíça que desconhecia, apesar de existir desde 1836. Fui saboreando aquela delícia amarga, com cacau vindo das florestas da Bolívia, embalada em uma caixa quadrada com a escrita Cru Sauvage. Bastante cara, mas valeu a pena. Estava contente, quase antecipando o efeito tradicional do chocolate, quando de repente a vi: nada de estonteante, bem entendido, uma mulher de cerca de 40 anos, comedida e discreta. Estava sozinha, elegantemente sentada na semiescuridão do hall, cruzando as pernas lindíssimas, nem musculosas nem magras, envolvidas em meias escuras. Estava toda de preto, com algumas rendas enriquecendo aqui e acolá a saia justa, nem muito curta nem muito longa.

Olhei a aparição maravilhado e ela retribuiu meu olhar, algo surpreendente para um homem acostumado a ser sistematicamente ignorado pelos olhares femininos, não por ser feio e velho, mas porque as mulheres, em São Paulo, como em Roma ou Timbuktu, costumam habitualmente evitar encarar alguém do sexo oposto. Parecia ter acabado de arrumar os cabelos castanho-escuros, de sorte a criar mechas onduladas a emoldurar seu rosto penetrante, quase sem maquilagem. Seus olhos eram grandes. Por causa dos vidros escuros do aeroporto, naquela noite de neve, não pude reconhecer sua cor. Mas eram magníficos.

Tirei a foto que acompanha este texto de um fantástico quadro do Museo del Barro, de Assunção, com uma figura impalpável que desperta em mim sentimentos semelhantes. Aquela senhora, cuja nacionalidade ignoro, me deixou impressionado e invadido por uma profunda paz interior. Não reparei em seus seios oumedi suas ilhargas, como faz instintivamente um homem: seus olhos me fizeram esquecer o contorno da sua boca. Não era o sex-appeal que importava, porque, no fundo, tratava-se de um anjo, uma pessoa etérea, que, durante todo o tempo em que esperou a chamada do voo para Hamburgo, ficou em silêncio pensando em algo positivo, ocasionalmente olhando em volta com uma expressão interessada, mas ignorando as tevês espalhadas pela sala. Não carregava nenhuma bagagem.

Naqueles poucos minutos em que fiquei sentado observando-a teria gostado de ouvir a música mais delicada do mundo. Senti falta de um piano lento, como na sofisticada Cantilena da Sonata nº 1 do nosso Edmundo Villani-Côrtes, pelas delicadas mãos de Antonio Vaz Lemes, ou na Zart und Singend das Davids Bündler Tänze, de Robert Schumann, com o terno toque de Anna Claudia Agazzi. Também seria perfeito o Prelúdio em Si Menor, de Domenico Zipoli, que, à espera da execução de um grande pianista, vocês podem ouvir do Cubusdk no YouTube.

Por fim, aquela mulher se levantou e começou a andar vagarosamente, como uma modelo de folga, em seus sapatos pretos de salto alto, mas sem exagero, com a sola pintada de vermelho. Minha filha de 18 anos me informou que aqueles escarpins são o famoso modelo Pigalle de Christian Louboutin, mas eu prefiro ignorar essa queda comercial da minha sombra celestial. Aquela figura mítica era nada mais do que a personificação de um desejo que muitos homens têm de algo puro, refinado, à beira da perfeição, em um mundo que está cada vez mais vulgar, grosseiro e atrevido. Ela era simplesmente uma mulher de classe…

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