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Número 794,

Economia

Análise / Delfim Netto

Corrigir o curso

por Delfim Netto publicado 08/04/2014 04h50
O aumento dos juros funcionaria melhor no controle da inflação se os preços estivessem livres e a indexação fosse menor

Por qualquer ângulo que se observe a economia brasileira, é preciso muito esforço para enxergar a iminência de uma crise, como alguns analistas aqui e no exterior querem que a população acredite. As expectativas pessimistas cresceram nas últimas semanas, estimuladas pela hesitação do governo em corrigir o curso de manobras erradas no combate à inflação (a demora em corrigir os preços dos combustíveis) e na má administração dos problemas (sem explicações plausíveis) que atingiram os setores de abastecimento de água e energia elétrica. Não se pode exigir dos governos que se acertem com São Pedro no devido tempo, mas o fato é que não foi prudente estimular o gasto de energia nos períodos habituais de redução do nível de água nos reservatórios das hidrelétricas.

Há uma situação desconfortável no trato dessas questões, mas nada que indique que a economia está fora do eixo e que o Brasil vai entrar em crise amanhã: em tudo o que foi feito, o certo pode ser melhorado e o errado pode ser corrigido. O aumento dos juros – o remédio indicado pelos economistas – funcionaria melhor no controle da inflação se os preços estivessem livres, se a indexação fosse menor e se a política fiscal estivesse contribuindo para reduzir a demanda global.

O que é preciso pensar é por que as expectativas de inflação continuam rigorosamente as mesmas. Enquanto não tivermos um ajuste na política fiscal vamos continuar a corrigir os juros, mas o efeito disso é pequeno: já aumentamos os juros em 375 pontos e estamos vendo que as expectativas de inflação não têm diminuído. Essas expectativas são criadas, em primeiro lugar, pelo fato de que se introduziram subsídios e alguns abatimentos de impostos para controlar preços; em segundo lugar, porque houve intervenções nos preços dos combustíveis, da energia elétrica, nos transportes urbanos, e nada disso desaparece: simplesmente pode atrasar um pouco o problema dos reajustes, mas ele vai acontecer, não sem antes criar uma expectativa de que a inflação não vai diminuir. É ilusão pensar que se pode mudar a expectativa de inflação enquanto tiver uma inflação acumulada não registrada no índice.

O controle de preços dos combustíveis e da energia elétrica apenas consegue adiar a ação do mercado. Leva à ideia de que existe uma inflação reprimida e cria a expectativa de que a inflação vai subir mais cedo ou mais tarde. Se o governo estivesse seguindo as indicações dos preços, teria uma redução da expectativa inflacionária. No sentido contrário, enquanto estiver segurando a correção dos preços, a expectativa é de que a inflação está apenas contida no índice e logo vai acontecer.

O rebaixamento da nota do Brasil, que ainda continua como grau de investimento, permitiu que se explore a crença do brasileiro de que estamos numa situação mais difícil do que a verdadeira. Se alguém analisar o documento da Standard & Poor’s verificará que as críticas que estão lá são todas reconhecidas pelo governo e pelos analistas brasileiros.

Que críticas são essas? 1. Que o Brasil tem uma dívida bruta muito alta em relação ao PIB. 2. Que a inflação está batendo no teto da meta. 3. Que há um déficit em transações correntes. Todas essas críticas são velhas conhecidas e também a afirmação de que o Brasil demorou a corrigir isso, mas está tentando corrigir. O governo comprometeu-se com um superávit primário de 1,9% do PIB, mas ficou faltando uma explicação razoável de como ele financiará esse problema que apareceu na conta da energia elétrica. Creio que esse último foi o fator que mais levou a S&P a se apressar em reduzir a nota.

Do lado do câmbio, o problema está sendo resolvido pela desvalorização do real em relação ao dólar americano e, provavelmente, vamos ter uma redução em 10 ou 12 meses no déficit em conta corrente. O esforço do Banco Central para corrigir a trajetória da inflação é muito grande, mas sua ação tem sido prejudicada quando o governo procura substituir o mercado na formação dos preços, deixando ver que existe uma inflação escondida, embora pequena.

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